sábado, 30 de novembro de 2024

Recortes e Retalhos


Fez-se carne o verbo:

Corpo.

De palavras feito.

Imperfeito.

= --- =

Escrevo.

E me liberto do medo.

do velho segredo.

Andarei desnuda

Em praias povoadas.


= --- =

Nesse turbilhão de palavras,

Barulhos, notícias, pedidos, 

Compromissos, zumbidos

Sigo à procura da poesia

Pepita que brilha

Entre o desejo e a lama

Ela permanece escondida.

= --- =



Se Picasso já pintava
Cinco telas num só dia
Mesmo com poucas palavras
Saio a fazer poesia.
Pegando pedaços e cacos
De uma louça quebrada
Tentando fazer com as letras
Um gaudiano mosaico.
Ou com bordados no pano
Encarnar Bispo do Rosário.

= --- =

Enquanto procuro na areia
Seixos rolados,
Lascas de malacacheta.
Encontro poesia e vida
em um ovo de lagartixa.

= --- =

Entre matos e pedras
Dias e dias
Noites de agonia
Pesadelos
Nem poemas, nem alegria
Um bloco de rocha prostrava
Irremovível.
O sol o beijava de dia.
À noite o sereno umedecia
Um ralo musgo se formava
Com folhas secas quebradas
Que o tempo enegrecia.
E no silêncio da madrugada
Pequena semente nascia 
À espera do sol que viria 
Para energizar sua vida.
 

quinta-feira, 31 de outubro de 2024

VIAGEM A ARACAJU E ARREDORES

 


“Ninguém ouviu um soluçar de dor

No canto do Brasil.

Um lamento triste sempre ecoou

Desde que o índio guerreiro foi pro cativeiro

E de lá cantou

Negro entoou, um canto de revolta pelos ares

Do Quilombo dos Palmares...” (Canto das três raças de Paulo Sérgio Pinheiro, com música de Mauro Duarte e interpretação mais conhecida na voz de Clara Nunes).

         Há algum tempo, passei por Sergipe, a caminho de Recife (PE). Ficou a vontade de voltar para conhecer melhor o estado, convicta de que o Nordeste brasileiro sempre vale bons passeios, com muita praia bonita, gente hospitaleira e cultura rica. Agora, finalmente fui para ficar um período de sete dias.

Lagoa linda e limpa em frente à praia do Atalaia

A  palavra Sergipe, tem origem na língua tupi e significa rio dos siris.  O nome passou por variantes Cirizipe e Cerigipe que significa ferrão de siri, numa referência ao cacique Serigy, um dos valentes guerreiros que lutaram contra o domínio ibérico.

Estátua em frente ao Museu da Gente Segipana


Embora a herança indígena esteja por todo o estado, os habitantes originários foram praticamente dizimados. Seu povo vivia entre os atuais rios Vaza-barris e Sergipe, onde está Aracaju. Depois de três décadas de luta, em 1590, foram vencidos pelos invasores que fundaram a capitania de Sergipe del Rey. 

No entanto, a herança indígena continua forte em todo o estado. A capital guarda em seu nome o significado de origem tupi-guarini, (Ará, papagaio e  Acaiú, fruto do cajueiro), que resultou em Aracaju, ou cajueiro dos papagaios.

São Cristóvão, a quarta cidade mais antiga do Brasil, foi a primeira capital do estado. Construída em estilo espanhol, hoje tombada como patrimônio nacional e pela UNESCO, a cidade e seu  centro possuem grande valor histórico e cultural e as construções do período colonial encontram-se em bom estado de preservação. Ai encontramos artistas de renome como o xilogravurista Arnaldo Oliveira, que nos recebeu carinhosamente em seu ateliê. Da mesma forma fomos tratadas na Casa dos Saberes e dos Fazeres pelas suas simpáticas bordadeiras e pelo Sr Jorge dos Estandartes que aos 88 anos é ícone da cultura popular, e compõe mantos e outras lindas peças artísticas.

Praça de São Francisco em São Critóvão


Arte têxtil elabora por Sr Jorge dos Estandartes

Os locais por onde andamos valem muito a pena de serem apreciados. A cidade de Aracaju encontra-se limpa e bem cuidada. Foi planejada e possui um plano diretor que estabelece limites à especulação imobiliária. Os rios não são poluídos e possuem matas ciliares preservadas. Há praias de mar e de rios espalhadas por diversas áreas. A proximidade com o estado da Bahia permite visitas à praia do Saco e Mangue Seco. Próximas ao local onde nos hospedamos, Atalaia, Aruana e Mosqueiros são ótimas opções.

É compensador também pegar a lancha na orla do pôr do sol e fazer um passeio à Croa do Goré, um banco de areia no encontro do rio com o mar, que propicia horas de banho de águas mornas e limpas, vista linda dos mangues que beiram o rio. Quando tais encantos são apreciados juntamente com a caipirinha de frutas e os variados tira-gostos disponibilizados nos barcos bar, ou na única barraca do local, ficam inigualáveis. O barco bar e a barraca permanecem ancorados até  próximo ao final da tarde, quando a maré sobe implacavelmente expulsando a gente daquele paraíso.

Da mesma forma, andar um pouco mais por estrada, pegar o barco na praia do saco e depois o buggy pelo caminho de areia para alcançar as praias de Mangue Seco, no estado da Bahia, é um passeio relativamente fácil para quem está hospedado em Aracaju. Incluir uma parada na ilha da Sogra, na volta, incrementa ainda mais um dia cheio de aventuras e pleno de paisagens deslumbrantes.

Mangue Seco (BA) e seus coqueirais

Saco de Bode: essa
linda planta dá nome
à praia do Saco

Tanto o museu da Gente Sergipana, quanto o Memorial de Sergipe Prof Jouberto Uchoa, são bons espaços para imersão histórica e cultural do Estado. Especialmente o primeiro, com o acervo de réplicas das obras de Arthur Bispo do Rosário, juntamente com as estátuas gigantes de figuras do folclore de Sergipano na parte externa, me encantaram de maneira singular.

Para sintetizar, a viagem ao Sergipe e ao pedacinho da Bahia nos permitiu observar que é uma região plena de atrações turísticas, tem um povo muito hospitaleiro e uma cultura muito rica. Entretanto, percebe-se que a distribuição de renda é injusta como em todo o Brasil e que o povo “canta de dor”, sem perder de vista sua memória, e sua valiosa ancestralidade.

Voltamos revigoradas por apreciar mais um pouco da cultura e das imensas belezas desse nosso país, sem deixar de sentir, no entanto, repercutindo nos ouvidos, o eco dos clamores de seu povo.

Cacique Serigy vive! E sua luta nos encoraja.

Bispo do Rosário vive! E sua arte nos inspira.


Com as bordadeiras da Casa dos 
Saberes e dos Fazeres em São Cristovão

Com o mestre Nivaldo e companheiras de
viagem em São Cristóvão

segunda-feira, 27 de maio de 2024

A TRILHA


Dirigia o automóvel na via esburacada, com curvas e morros. Pedras mal encaixadas, musgos de aspecto úmido e escorregadio.  De um lado, a elevada montanha, do outro, o precipício escuro e sombrio.

Em contraste à rudeza do cenário, ela se vestia a rigor como para um baile antigo. Maquiada e de salto alto, a roupa escura e apertada, com dourados detalhes: bela e desconfortável.

Depois, ela montava um cavalo musculoso, de pelos escovados e crina aparada, e seguiam por uma trilha. Montanhas e precipícios mais próximos. O percurso exigia esforço de ambos.  Botas desconfortáveis torturavam os femininos pés, enquanto ela se indagava como iria a um baile de gala assim vestida. A hora se aproximava impiedosa, o tempo ia se escapando à velocidade da luz.

Aves de rapina cortavam os ares. Com medo, ela se persigna e encara afinal o acontecimento. Músicos exaustos, copos vazios e cinzeiros cheios. Flores murchas pendiam dos vasos. Na pista lateral, jovens dançavam um funk obsceno.

Nos portões de acesso surgem bandos de crianças que vão ocupando o espaço; aulas e brincadeiras começam e pessoas são expulsas por vigias truculentos. Não cabem reclamações ou protestos: tudo estava previsto no estatuto.

Estrada e trilha, automóvel, animal, nada mais havia. Agora avisam que ali não toleram anarquistas

domingo, 28 de abril de 2024

CRÕNICAS DO DIA A DIA

 

MEU AMIGO VALDO

 A campainha toca e eu chego à janela.

- Dá dois real ai vó.

Me senti a maior das ultrajadas. Era um homem preto, apavorado, descalço e sem camisa. Disfarçando pecados mais graves e preconceitos enraizados, retruquei em nome da vaidade:

- Não tenho idade para ser sua avó não, moço. Quantos anos você tem?

- Ah então tá titia dá dois real  meu nome é Valdo e tenho 37.

A nota que entreguei ao sujeito magro e sarado estava amassada e sem cor como quase todas de pequeno valor, que por aí ainda circulam, como símbolo de resistência nesses tempos de valores virtuais.

Fiz um amigo. Ou melhor, ganhei um parente, daqueles que ainda visitam a família com regularidade. Quase todos os dias ele passa quando o sol está a pino. Costuma voltar ao final da tarde e pode aparecer até à noite.

Já me contou que seu nome completo é Riovaldo dos Santos Silva e percebo que o quase xará do filósofo sertanejo é mais agitado do que eu. Mesmo raramente,  costuma aparecer fora de horas. Nessas ocasiões  vem ainda mais falante e gesticula com intensidade cabeça e braços. A respiração ofegante. Pudera. Além de andar muito, sobe o morro que dá acesso ao bairro, quase sempre às pressas. Parece acompanhar com os passos o ritmo da fala e expressa seu taquipsiquismo claramente, quando dá notícias de todos os infortúnios da cidade. Por volta do meio dia atendo a campainha.

- É eu titia.  Mataram um agora lá no Rebenta, me dá cinquinho preu almoçar.

- Credo, Valdo, para de espalhar notícia ruim. Hoje não tem cinco, mas você tá quase com sorte, vão aí duas de dois. E entrego as notas amassadas.

Mesmo que abomine as páginas dos crimes dos jornais, ando atualizada de todas ocorrências violentas. E fico sabendo, segundo Valdo noticiário, que naquela semana foram pelo menos mais dois crimes chocantes.

- Um sujeito da APAC foi degolado agora  pouco, titia. Até os polícia  anda com medo. E uma moto passou por cima de um senhor que tava na faixa em frente ao supermercado. Mesmo atravessando certo, o pobre morreu na hora. Dá dois real aí titia.

Quando informo que hoje tô sem dinheiro algum, ele pede uma água. Ainda bem que ultimamente parece mais calado. Entretanto não deixou de dizer que o pai dele queria bater na sobrinha por causa de um pedaço de carne. E arrematou: - tem muita violência pro todo lado, titia.

Ando sorumbática, sem disposição para tanta notícia ruim. No entanto, sinto falta quando ele desaparece por vários dias.

- Você sumiu, Valdo. Comento quando ele ressurge tocando a campainha.

- Tudo bão, titia? Me arruma um dez, ainda num almocei. E já saindo às pressas com o cinquinho que lhe entrego, avisa de longe: sumi porque arrumei uma namorada lá em Araponga.

sábado, 30 de março de 2024

SOBRE PLANTAS E INTELIGÊNCIA

 

        “A reforma do pensamento requer um questionamento radical que desanima as pessoas" (Edgar Morin, em Meus Demônios. Bertrand Brasil, 2000, p. 185).


Resenha do livro: Revolução das Plantas Stefano Mancuso. São Paulo: Ubu Editora, 2019.


 A não ser pelo fato de que ambos são seres vivos, animais e plantas diferem-se de tal maneira que pode-se  chegar a crer que além dessa característica, nada mais possuam em comum. Enquanto animais, no geral locomovem-se e precisam buscar sua comida  para sobreviver, as plantas  fabricam seu próprio alimento e são entes de estruturas fixas. Além dessas destacadas diferenças, a incapacidade de aprender, dada a ausência de memória no mundo vegetal, vinha sendo considerada particularidade determinante a distinguir entre os dois entes.

O livro Revolução das plantas do biólogo e pesquisador italiano Stefano Mancuso, publicado no Brasil pela Editora Ubu,  apresenta um novo olhar sobre o reino vegetal, com conceitos e ideias muito surpreendentes para a maioria das pessoas.

O livro recebeu o prêmio Galileo de
divulgação científica no ano de 2018

O autor informa que o comportamento de plantas vem sendo estudados pela ciência desde pelo menos o século XVIII,  e que afinidades entre os reinos animal e vegetal no que concerne à capacidade de cognição e aprendizagem das plantas vem sendo descobertas desde então.

Perguntando se é possível existir memória sem  cérebro, esse livro nega o conceito de passividade das plantas, ao afirmar que elas são formas de vida  bastante sofisticadas. Por apresentarem comportamentos interessantes, ainda que não possuam cérebro, encontram formas particulares de criarem e reterem memórias, sendo capazes de assumir novos comportamentos.  

Também as plantas podem praticar o mimetismo a seu favor, fortalecendo a capacidade de sobreviver e surpreendendo-nos com o quanto têm a ensinar. A busca pela sobrevivência e pela evolução ao longo dos anos dotaram as plantas de sabedorias milenares que, ao serem descobertas tem surpreendido cientistas em todo o mundo. Comportamentos tão aprimorados das plantas podem e vem sendo utilizados para inspirar soluções para problemas humanos de alta complexidade. Mais recentemente suas estruturas e propriedades têm sido utilizadas até para a construção de protótipos  de sondas de exploração espacial. Os chamados robôs plantóides já estão sendo utilizados experimentalmente por laboratórios da NASA, com perspectivas de uso na busca de conhecimentos sobre outros planetas.

A maneira como as plantas coexistem na natureza e convivem com as diferenças, colaborando entre si no processo evolutivo, desenvolve uma espécie de inteligência coletiva,  que favorece a sobrevivência e  inspira estudos sobre  novos sistemas de governança cooperativa baseada na  descentralização como em uma árvore, por exemplo, e não com funções e atribuições dispostas em hierarquias. O autor enaltece tais características expressando o conceito de democracia verde, apontando como  modelo de gestão do futuro.

As palavras chaves da ficha catalográfica do livro são: Ecologia, Biologia, Ciências Sociais e Robótica; a obra contem relatos de diversas experiências científicas, discorre sobre propriedades e funções de órgão das plantas e de mecanismos que envolvem complexos emaranhados de reações físicas e químicas que ocorrem no seu interior. Ainda assim, a  leitura é acessível aos leigos, sendo, ao contrário do que se possa pensar ao início, muito didática e interessante. Em algumas partes, como no último capítulo, por exemplo, a escrita  chega a ser até muito bem humorada.