quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

TRÊS

Cecília Meireles, sempre oportuna, mais atual do que nunca.

TRÊS

Eu vi as altas montanhas
Ficarem planas
E o mar não ter movimento
E as cidades irem sendo
Teias de aranha.

Por mais que houvesse, dos homens,
Gritos de amor ou de fome,
Não se escutava
Nem a expressão nem o grito
- Que tudo fica perdido
Quando se passa.

Eu vi meus sonhos antigos
Não terem nenhum sentido,
E recordava
Tantas emoções de cativos
Estendendo em seus jazigos
Duras garras.

Rios de pranto e de sangue
Que pareceram tão grandes,
Onde é que estavam?
A asa que longe se move,
Desprende-se quando sobe,
Da humana larva. 


(In: Cecília Meireles. Antologia Poética. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001.)


sábado, 30 de dezembro de 2017

Balanços Inevitáveis

Chega o final de dezembro e, quando nos damos conta, já estamos refletindo sobre como foram os meses passados e fazendo planos para o ano novo. Mesmo  sabendo que, como disse o poeta,  "não sou quem me navego, quem me navega é o mar".
2017 provavelmente vai ficar na história como um "ano perdido": retrocessos nos direitos dos trabalhadores, desgoverno, corrupção quase generalizada entre os políticos, entrega de patrimônio dos brasileiros a empresas multinacionais, descaso com a educação, com a saúde e com outros deveres do estado, compra de votos e de apoios parlamentares à luz do dia, entre outras aberrações.
As perspectivas para o ano vindouro não são muito animadoras. Ano eleitoral geralmente é um tempo de renovar as esperanças, me desculpem o termo chulo, mas parece que brasileiro não se cansa de fazer m..... Candidato de extrema direita desponta entre os favoritos. Ocupando cargo público há mais de 25 anos, apresenta-se como o "salvador da pátria", aquele que vai mudar o sistema, mesmo fazendo parte dele há tanto tempo. O sujeito é truculento, intolerante, preconceituoso, além de ser defensor da pena de morte e da redução da menoridade penal, do uso indiscriminado de armas de fogo e de uma série de outras barbaridades. E há quem acredita em um crápula desses e defenda que ele vai melhorar o país. Sinceramente não sei se isso é ingenuidade; mais me parece ser ignorância e incapacidade de compreender a dificuldade em encontrar alternativas para convivência civilizada,  diante da complexidade dos problemas atuais.
Apesar de tudo vemos alguns mínimos avanços. A democratização da informação e o aumento na possibilidade de escolhas de meios de comunicação é o mais notável. 
E porque estamos renitentemente tentando ser alegres e esperançosos, lembramos que também neste ano que se finda, sabiás chocaram em nosso jardim. Fizemos arte, cuidamos das flores,  conhecemos novas trilhas e cachoeiras, continuamos tentando aprender a dançar, estivemos juntas com a família e amigos e, cada vez mais, sintonizadas com a natureza. 
Como são difíceis de de fotografar, os danadinhos

Desprezaram a casinha e
fizeram o ninho no vaso
E como disse aquele outro poeta, o maior de todos: "às vezes ouço passar o vento e penso que só por ouvir passar o vento, vale a pena ter nascido".
Feliz ano novo a todos, especialmente aos leitores  desse meu singelo bloginho.
Cachoeira da fumaça em Carrancas-MG.

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

JUNTOS SOMOS MELHORES

Acabo de receber os pacotes com minhas criazinhas desse ano: dois livrinhos infantis. Demorou, mas é bom que tenham chegado nessa época tão bonita e tão boa para presentear. Escrever faz parte de meus sonhos e da minha trajetória. Escrever para crianças insere-se dentro de um propósito de levar a vida brincando, com mais leveza e pouca censura.
Ficaram bonitos, não tenho como negar. Todavia devo reconhecer que o resultado final é também devido ao talento da ilustradora, à criatividade do responsável pelo projeto gráfico e tem muita contribuição dos editores e revisores. Nunca é demais lembrar que "nenhum de nós é tão bom, quanto todos nós juntos". 
Estou gostando dessa brincadeira e já  ensaiando novas rodadas. O aprendizado apenas começou. Há uma mente inquieta fervilhando de ideias e projetos já  bem delineados. Espero ter disposição, porque ficar parada não é do meu feitio. Sou movida a curiosidade, ousadia e paixão pela arte de maneira geral e especialmente pela literatura. 
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domingo, 19 de novembro de 2017

CONVERSAS DE JARDINEIROS - Um Jardim Bem Natural

Casa em estilo rústico auxilia na
 obtenção de jardim com aspecto natural
Bancos de madeira de demolição  e
 pedras próximos a arbusto florido
Os jardins mais bonitos que conheço, geralmente não se prendem demasiadamente às regras rígidas e técnicas de paisagismo, deixando que a natureza seja a grande fonte inspiradora para a sua criação e manutenção.
Antigo coxo de curral usado como jardineira
Tapoerabas nativas nas touceiras de hortênsias
É um encantamento olhar para um jardim ou canteiro e ser levado a acreditar que ele não foi planejado, mas brotou fluentemente no lugar e já nasceu bonito. O que raramente é verdadeiro. Jardins plenos de beleza necessitam de planejamento, um tempo para adaptação das plantas, e a integração das espécies ao local, especialmente às suas condições naturais.
Antúrios integrados à mata no caminho de chegada
Há aspectos importantes a serem considerados, no caso de se desejar um jardim bonito e harmonioso, especialmente quando se pretende maior liberdade para o gosto pessoal dos proprietários se expressar livremente e permitir brotações espontâneas.
 O tamanho do espaço disponível para o jardim, a topografia, os níveis de umidade e de insolação do terreno e os elementos naturais já existentes no local são, entre outros,  fatores  a serem considerados, além das regras de paisagismo. Estas, no geral, prendem-se bastante aos quesitos, cor, textura e altura das plantas, e a modismos. Isso mesmo. Tirando as chamadas “pretinhas básicas”, como os sagus e as palmeiras, por exemplo, plantas entram e saem da moda e paisagistas, em muitos casos, talvez pressionados, ou impressionados pelo marketing dos viveiristas e das revistas de decoração, se rendem às plantas da vez.
Rabos de tatu crescem espontaneamente no canteiro de bromélias
A ideia aqui é mostrar, como um jardim criado e mantido sem muitas regras, pautado predominantemente no gosto pessoal dos proprietários e nas condições do terreno, pode tornar-se um espaço de sonhos, dignos de admiração e encantamento.
Antigo carrinho de mão utilizado como
jardineira, enfeita o tronco de palmeira
imperial
Nesse exemplo, palmeiras e bromélias foram os carros chefes das plantas utilizadas, havendo uma  forte presença de sagus, árvores e arbustos floridos. Houve pouca intervenção na topografia acidentada do local. A existência de uma pequena cachoeira e um antigo lago deram o tom de naturalidade e casualidade perceptíveis no jardim. A casa e o mobiliário externo em estilo rústico foram também decisivos para a obtenção do resultado repleto de beleza e harmonia.

Ripsális em vasos formam cortina natural na varanda
É difícil imaginar que este local estava desprezado, degradado e entregue a pragas e carrapatos há alguns anos, quando foi adquirido pelo casal; ele engenheiro, ela artista plástica, ambos cheios de bom gosto, amor à natureza e desejo de preservar uma nascente e uma matinha nativa, que estavam em vias de desaparecer, e fazer dali seu local de descanso e contemplação.
A dedicação permanente a a persistência dos proprietários, além do amor ao local, foram e tem sido decisivos para a obtenção desse resultado deslumbrante. Que não se enganem os adeptos de soluções fáceis e prontas: construir e manter um local como esse exige, além de muito amor, trabalho duro e persistente.

Moinho d´água construído ao lado da cachoeirinha integra o jardim

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Tão Rico, Tão Pobre

Estou expondo meus estandartes na Casa de Cultura de Paula Cândido, como parte da programação da festa de Nossa Senhora do Rosário, evento que se repete há mais de um século. Já participei de exposições em outros locais e cidades, todas muito bacanas, que me encheram de alegria pela oportunidade de mostrar minhas artes e interagir com os visitantes. Todavia nenhuma delas esteve em um contexto tão apropriado como essa que vem ocorrendo agora.
Estandarte que compus especialmente para a Exposição
Estandartes são bandeiras ou flâmulas que abrem desfiles militares, religiosos, ou de festividades pagãs, como o carnaval, por exemplo. Representam tropas, grupos, nações, tribos, embarcações, ou blocos e geralmente são compostos em tecidos com as cores das respectivas agremiações. Na sua composição, na maior parte das vezes, utilizam-se rendas, fitas, bordados, sianinhas, galões, pedrarias e outros adereços que contribuam para dar cor, harmonia e beleza às peças que possuem um papel importante nos desfiles e cortejos. Estandartes, no Brasil, ganharam status de obras de arte, com Arthur Bispo do Rosário, artista brasileiro, cujas obras já estiveram presentes em bienais e exposições em diversos países.


Congada em frente à igreja do Rosário-Foto: Thaynã Paes


Todo o vigor da festa. Foto Thaynã Paes

As Congadas são tradicionais manifestações da cultura popular e têm forte influência de danças, músicas e costumes africanos, que, num processo de sincretismo religioso, incorporaram-se às comemorações católicas. Atualmente, assim como ocorre em Paula Cândido, em várias outras localidades, as festas do Rosário praticamente não existem sem as Congadas. Estas, por sua vez, não existem sem os estandartes.
Mestre Zezinho: elegância, vigor, alegria
Quando assisto manifestações populares importantes como essa, não consigo deixar de pensar em como a cultura africana é forte, pois, apesar de historicamente vir sofrendo contínuas tentativas de massacre, tem sobrevivido com todo o vigor. E isso não se dá apenas com as Congadas. Quando vamos a Salvador (BA), Ouro Preto (MG), ou Olinda (PE), por exemplo, deparamos permanentemente, com manifestações da cultura afro, seja por intermédio da música, dança, folclore, culinária e outras expressões.
Toda prosa no meio dos mestres-Foto Thaynã Paes
No meio a toda essa riqueza cultural, não posso também deixar de observar o quanto grande parte de nosso povo continua pobre no sentido literal da palavra, não usufruindo de condições mínimas para ter uma vida digna. Penso muito nisso quando vejo pessoas sem dentes, ou com prótese dentária total, ou caminhando pelas ruas em dias chuvosos com os pés desprotegidos (calçando chinelos de dedos), por exemplo. Essas são manifestações evidentes de falta de acesso a condições mínimas de uma vida decente.
Tudo isso me comove muito e me espanto de perceber o quanto são insensíveis os políticos e demais pessoas detentoras de poder, nesse nosso país tão lindo, tão rico de recursos materiais e de tradições culturais e, ao mesmo tempo, tão pobre de oportunidades ao povo. Grande parte dele não usufrui sequer da possibilidade de ter uma vida com um mínimo de dignidade e conforto material. Ainda assim, continua alegre, festeiro e animado e nos brinda constantemente com manifestações encantadoras como  a festa do Rosário e o Congado de Paula Cândido, dos quais, este ano, estou tendo a honra de fazer parte.
Com a equipe da Secretaria de Cultura
Recebendo visitantes na exposição-Foto Thaynã Paes