domingo, 19 de novembro de 2017

CONVERSAS DE JARDINEIROS - Um Jardim Bem Natural

Casa em estilo rústico auxilia na
 obtenção de jardim com aspecto natural
Bancos de madeira de demolição  e
 pedras próximos a arbusto florido
Os jardins mais bonitos que conheço, geralmente não se prendem demasiadamente às regras rígidas e técnicas de paisagismo, deixando que a natureza seja a grande fonte inspiradora para a sua criação e manutenção.
Antigo coxo de curral usado como jardineira
Tapoerabas nativas nas touceiras de hortênsias
É um encantamento olhar para um jardim ou canteiro e ser levado a acreditar que ele não foi planejado, mas brotou fluentemente no lugar e já nasceu bonito. O que raramente é verdadeiro. Jardins plenos de beleza necessitam de planejamento, um tempo para adaptação das plantas, e a integração das espécies ao local, especialmente às suas condições naturais.
Antúrios integrados à mata no caminho de chegada
Há aspectos importantes a serem considerados, no caso de se desejar um jardim bonito e harmonioso, especialmente quando se pretende maior liberdade para o gosto pessoal dos proprietários se expressar livremente e permitir brotações espontâneas.
 O tamanho do espaço disponível para o jardim, a topografia, os níveis de umidade e de insolação do terreno e os elementos naturais já existentes no local são, entre outros,  fatores  a serem considerados, além das regras de paisagismo. Estas, no geral, prendem-se bastante aos quesitos, cor, textura e altura das plantas, e a modismos. Isso mesmo. Tirando as chamadas “pretinhas básicas”, como os sagus e as palmeiras, por exemplo, plantas entram e saem da moda e paisagistas, em muitos casos, talvez pressionados, ou impressionados pelo marketing dos viveiristas e das revistas de decoração, se rendem às plantas da vez.
Rabos de tatu crescem espontaneamente no canteiro de bromélias
A ideia aqui é mostrar, como um jardim criado e mantido sem muitas regras, pautado predominantemente no gosto pessoal dos proprietários e nas condições do terreno, pode tornar-se um espaço de sonhos, dignos de admiração e encantamento.
Antigo carrinho de mão utilizado como
jardineira, enfeita o tronco de palmeira
imperial
Nesse exemplo, palmeiras e bromélias foram os carros chefes das plantas utilizadas, havendo uma  forte presença de sagus, árvores e arbustos floridos. Houve pouca intervenção na topografia acidentada do local. A existência de uma pequena cachoeira e um antigo lago deram o tom de naturalidade e casualidade perceptíveis no jardim. A casa e o mobiliário externo em estilo rústico foram também decisivos para a obtenção do resultado repleto de beleza e harmonia.

Ripsális em vasos formam cortina natural na varanda
É difícil imaginar que este local estava desprezado, degradado e entregue a pragas e carrapatos há alguns anos, quando foi adquirido pelo casal; ele engenheiro, ela artista plástica, ambos cheios de bom gosto, amor à natureza e desejo de preservar uma nascente e uma matinha nativa, que estavam em vias de desaparecer, e fazer dali seu local de descanso e contemplação.
A dedicação permanente a a persistência dos proprietários, além do amor ao local, foram e tem sido decisivos para a obtenção desse resultado deslumbrante. Que não se enganem os adeptos de soluções fáceis e prontas: construir e manter um local como esse exige, além de muito amor, trabalho duro e persistente.

Moinho d´água construído ao lado da cachoeirinha integra o jardim

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Tão Rico, Tão Pobre

Estou expondo meus estandartes na Casa de Cultura de Paula Cândido, como parte da programação da festa de Nossa Senhora do Rosário, evento que se repete há mais de um século. Já participei de exposições em outros locais e cidades, todas muito bacanas, que me encheram de alegria pela oportunidade de mostrar minhas artes e interagir com os visitantes. Todavia nenhuma delas esteve em um contexto tão apropriado como essa que vem ocorrendo agora.
Estandarte que compus especialmente para a Exposição
Estandartes são bandeiras ou flâmulas que abrem desfiles militares, religiosos, ou de festividades pagãs, como o carnaval, por exemplo. Representam tropas, grupos, nações, tribos, embarcações, ou blocos e geralmente são compostos em tecidos com as cores das respectivas agremiações. Na sua composição, na maior parte das vezes, utilizam-se rendas, fitas, bordados, sianinhas, galões, pedrarias e outros adereços que contribuam para dar cor, harmonia e beleza às peças que possuem um papel importante nos desfiles e cortejos. Estandartes, no Brasil, ganharam status de obras de arte, com Arthur Bispo do Rosário, artista brasileiro, cujas obras já estiveram presentes em bienais e exposições em diversos países.


Congada em frente à igreja do Rosário-Foto: Thaynã Paes


Todo o vigor da festa. Foto Thaynã Paes

As Congadas são tradicionais manifestações da cultura popular e têm forte influência de danças, músicas e costumes africanos, que, num processo de sincretismo religioso, incorporaram-se às comemorações católicas. Atualmente, assim como ocorre em Paula Cândido, em várias outras localidades, as festas do Rosário praticamente não existem sem as Congadas. Estas, por sua vez, não existem sem os estandartes.
Mestre Zezinho: elegância, vigor, alegria
Quando assisto manifestações populares importantes como essa, não consigo deixar de pensar em como a cultura africana é forte, pois, apesar de historicamente vir sofrendo contínuas tentativas de massacre, tem sobrevivido com todo o vigor. E isso não se dá apenas com as Congadas. Quando vamos a Salvador (BA), Ouro Preto (MG), ou Olinda (PE), por exemplo, deparamos permanentemente, com manifestações da cultura afro, seja por intermédio da música, dança, folclore, culinária e outras expressões.
Toda prosa no meio dos mestres-Foto Thaynã Paes
No meio a toda essa riqueza cultural, não posso também deixar de observar o quanto grande parte de nosso povo continua pobre no sentido literal da palavra, não usufruindo de condições mínimas para ter uma vida digna. Penso muito nisso quando vejo pessoas sem dentes, ou com prótese dentária total, ou caminhando pelas ruas em dias chuvosos com os pés desprotegidos (calçando chinelos de dedos), por exemplo. Essas são manifestações evidentes de falta de acesso a condições mínimas de uma vida decente.
Tudo isso me comove muito e me espanto de perceber o quanto são insensíveis os políticos e demais pessoas detentoras de poder, nesse nosso país tão lindo, tão rico de recursos materiais e de tradições culturais e, ao mesmo tempo, tão pobre de oportunidades ao povo. Grande parte dele não usufrui sequer da possibilidade de ter uma vida com um mínimo de dignidade e conforto material. Ainda assim, continua alegre, festeiro e animado e nos brinda constantemente com manifestações encantadoras como  a festa do Rosário e o Congado de Paula Cândido, dos quais, este ano, estou tendo a honra de fazer parte.
Com a equipe da Secretaria de Cultura
Recebendo visitantes na exposição-Foto Thaynã Paes

sábado, 30 de setembro de 2017

Nossa Viçosinha

Hoje é dia da cidade. Para o momento, seria mais adequado exaltar as coisas boas de Viçosa, que, felizmente, são muitas. Carregando esse nome lindo, nossa  Viçosinha, como a chama minha filha, deveria e poderia ser um lugar melhor. Não que não seja bom. É, segundo alguns rankings que tem sido divulgados por ai, um dos melhores lugares para se morar em Minas Gerais.
Em minha opinião, só não é melhor por conta desse grupo de mandatários que encontra-se aboletado no poder, há tanto tempo. Os últimos chefes do executivo viçosense fizeram da casa rosada, um lugar encardido, onde os legítimos anseios do povo raramente foram levados em conta. 
Como se sabe, o aspecto visual das instituições diz bastante sobre o que elas são, ou, pelo menos como estão sendo conduzidas. Como parte da cultura, a sede das organizações expressa muito sobre as intenções dos seus dirigentes; sobre a disposição para manter ou não um diálogo aberto com seus  interlocutores e comunica, de maneira velada, uma série de intentos não claramente expressos em seus documentos formais.
Há pouco tempo, transferiram os gabinetes do executivo municipal para um antigo prédio que fez história como escola e que já abrigava algumas secretarias do governo municipal, porém encontrava-se em um precário estado de conservação. Por incrível que pareça, ao mudar todo o aparato municipal para esse imóvel, fez-se uma reforma apenas na fachada do prédio e nos gabinetes mais importantes, ficando as demais partes da edificação em estado lamentável. O descaso com que tratam as questões municipais fica bem evidente em condutas como essa.
Viçosa é um lugar aprazível, de bom clima, de gente amável, é sede de uma instituição federal de ensino conhecida e respeitada nacionalmente, não merecia ser castigada por gestão municipal tão despreparada. Ou seria mal-intencionada? Ou as  duas coisas ao mesmo tempo?
Aqui, a educação, a saúde, o transporte, a limpeza pública e a maior parte das outras questões que fazem parte do rol de atribuições municipais são tratadas com descaso, ou adotando-se condutas incompreensíveis para a maior parte do povo.
Apesar de haver entre a população, tanta gente preparada e bem-intencionada disposta a contribuir para a melhoria de Viçosa, pouca coisa ou quase nada se faz para que tenhamos um lugar melhor para morar, uma cidade mais humana, mais limpa e com mais oportunidades para todos. Geralmente essas pessoas que não fazem parte da administração pública atuam e lutam, individualmente, ou em grupos por intermédio de ONGs – Organizações Não Governamentais em prol de melhorias para a cidade. No entanto, raramente suas sugestões e projetos são aproveitados.
A mais bonita pista de caminhada
O poder público parece preferir a improvisação, o amadorismo e o compadrio. Isso para dizer o mínimo, pois sabe-se que há interesses econômicos e políticos que orientam ações e decisões que geralmente privilegiam os poderosos de sempre, em detrimento da população que mais necessita de serviços municipais de qualidade.
Apesar disso, amamos Viçosa e seu ambiente alegre. Gostamos de viver nesse reboliço que é feito de gente que chega a toda hora, mas também e principalmente por aqueles que aqui nasceram ou que, como é o meu caso, escolheram viver nessa cidade acolhedora. Aqui não temos um dos maiores PIBs (Produto Interno Bruto) do Brasil, mas temos uma distribuição de renda menos desigual que na maior parte do país; não convivemos apenas com pessoas sem preconceitos, mas vemos menos discriminação e menos crueldade com os que ousam ser diferentes; raramente nos deparamos com um morador de rua, ou um pedinte e nunca presenciei, felizmente, ações de desrespeito e, ou crueldade com essas pessoas, como a que observamos com frequência em muitas cidades tidas como boas. 
A casa branca sempre impecável
 Enfim, aqui a sede da prefeitura é encardida, mas temos a casa branca sempre impecável, muitas ruas são esburacadas e mal sinalizadas, mas desfrutamos das mais bonitas e bem cuidadas pistas de caminhadas que poderíamos desejar; a elite política é "de lascar", mas o povo, no geral, é amável, acolhedor, culto e bem intencionado. E as festas de Viçosa são sempre as melhores, quanto a isso creio não restar dúvidas. Nossa Viçosinha tem muita coisa coisa boa das quais podemos nos orgulhar.

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Primavera

Ipê com ninho de João Peneném
Temos tido motivos de sobra para andar tristes e preocupados com acontecimentos atuais. Catástrofes com grande quantidade de mortos e feridos em vários países da América, intolerância e perseguição a refugiados pela Europa. E aqui no Brasil, ai meu Deus, governo ilegítimo propondo e aprovando reformas que retiram direitos dos trabalhadores, bancadas inteiras de deputados e senadores atolados até o pescoço em processo de corrupção, órgãos do judiciário tomando decisões preconceituosas e retrógradas, arte sendo censurada, além de muitos outros motivos para andarmos aborrecidos. 
Em nossa região, as coisas não andam melhores: políticos descomprometidos com o bem estar do povo, serviços públicos de péssima qualidade, descaso com a natureza. Estamos atravessando um período de seca intensa com racionamento de água,  o que já virou rotina nos últimos anos. 
É duro ver as plantas pedindo água e não termos como regá-las a vontade. Aproveita-se a água da máquina de lavar, reduz-se o consumo em tudo que é possível para ver se podemos, pelo menos de vez em quando, borrifar um pouquinho de água na hortinha minúscula, nas frutíferas em vasos e nos canteiros nos geral.
Tucanos vistos da minha janela. Foto: Fernanda Pônzio
Talvez até por isso, pelo cuidado que tenho com o jardim, meu quintal virou um oásis de passarinhos. Mais do que nunca eles estão habitando intensamente o nosso espaço. Beija-flores e bem-ti-vis, sabiás, canarinhos, tico-ticos, o raro sahí e muitos outros andam mais presentes do que nunca. Agora apareceram também lindos tucanos do bico alaranjado, uma coisa rara por aqui. 
Só mesmo a nossa mãe natureza, mesmo tão judiada, para nos retirar do estado de desânimo e desconsolo que tem prevalecido entre nós, por conta de tanta barbaridade que os homens andam fazendo pelo mundo afora.




sábado, 26 de agosto de 2017

VIAGENS – Museu Guimarães Rosa e Gruta de Maquiné, em Cordisburgo MG

Costumo dizer que seu não fosse mineira, queria ter nascido em Minas Gerais. Ainda bem que dizem por aí que somos tímidos e modestos (o que penso não ser o meu caso, em particular). Não fora isso, viveríamos de exaltar as coisas boas que temos no estado.
Relacionar lugares para visitar em Minas é uma moleza. Podemos fazer listas que não acabam mais, começando pela capital e seu entorno, destacando o Inhotim, indo depois para Ouro Preto, Mariana e redondezas. Não é difícil alcançar Congonhas, Tiradentes, Sabará, Diamantina e os incontáveis distritos históricos mineiros, cheios de beleza e charme. Em nosso clima ameno e topografia predominantemente montanhosa, encontramos paisagens encantadoras, trilhas incríveis, com rios, cachoeira e grutas espetaculares. Além da comida, é claro, um dos atrativos consideráveis do estado.
Passaria facilmente longas horas a contar dos encantos do nosso estado, se não quisesse também falar de nossa gente. Quem tem Guimarães Rosa, Carlos Drummond de Andrade, Adélia Prado, Fernando Sabino, Ziraldo, Fernando Morais, Milton Nascimento e Sebastião Salgado, entre tantos outros, tem prosa da boa por muito tempo.
Estaçãozinha de trem em Cordisburgo
A proposta de hoje é falar de um passeio à terra do nosso escritor maior. Refiro-me a Cordisburgo, cidade de Guimarães Rosa, que fica bem próximo a Belo Horizonte. Um dia é suficiente para adentrar no ambiente onde foi gestada e  inspirada a obra desse autor admirável. Em sua terra natal, está o Museu Casa de Guimarães Rosa, organizado na residência da família onde viveu o escritor grande parte de sua infância. O museu reúne um ótimo acervo com mobiliário original, fotos, manuscritos, matrizes de impressão de algumas obras e edições históricas dos livros do autor, entre outras preciosidades. Dentre os cômodos preservados da casa, o quarto da avó e a venda do pai (seu Fulô), onde o menino João cresceu ouvindo histórias contadas por sertanejos da região, que inspiraram toda a sua obra, especialmente o espetacular Grande Sertão - Veredas. Emociona ver os livros com dedicatórias e as cartas do autor aos pais e, encanto dos encantos, a coleção de gravatas borboletas do autor de Sagarana.
No museu estão também a sua máquina de escrever, objetos referentes à sua atuação como médico e diplomata e o diploma da Academia Brasileira de Letras, recebido apenas três dias antes de sua morte.  
Capa bordada com cenas do livro
Grande Sertão - Veredas
Importante atrativo da cidade, incentivando o turismo cultural e de pesquisadores, o museu conta com intensa participação da comunidade local que, por intermédio da Associação dos Amigos do Museu Casa Guimarães Rosa (AAMCGR), desenvolve atividades, eventos e projetos voltados à divulgação da obra do autor e à preservação de sua memória. 
No Portal Grande Sertão
Bem à frente do Museu está o Portal Grande Sertão, um conjunto de esculturas em bronze, representando uma cena de um grupo de cavaleiros prontos para adentrarem o sertão, tal como fez Guimarães Rosa diversas vezes, não somente ao exercer sua atividade como médico, mas também em viagens planejadas ao norte de Minas e adjacências, para colher materiais para seus escritos. Compõe o conjunto uma estátua do autor.
A cidade de Cordisburgo, que é pequena e acolhedora, preseva traços da época em que viveu o autor. Bordadeiras compõem peças com reproduções de cenas da obra de Rosa, bem em frente à estaçãozinha de trem. Tudo na cidade respira literatura.

Entrada da gruta de Mquiné
Estando em Cordisburgo não se pode deixar de visitar a sua outra grande atração turística: a gruta de Maquiné. Com boa estrutura para atendimento ao visitante, o local abriga um museu moderno e interativo que guarda acervo relativo ao período da descoberta da gruta, em 1825 e homenageia o naturalista dinamarquês Peter Lund, um importante estudioso das grutas de Minas Gerais, responsável  pelos registros de vida pré-histórica na região.
Primeiro salão da Gruta 
Já relatei por aqui que não sou muito amiga de grutas. Confesso que dessa vez quase rompi meu medo, encantada que fiquei com a vista ao primeiro salão, majestoso e claro, um cenário de sonhos, esculpido pela natureza. Não me encorajei a atravessar o estreito corredor de acesso aos outros ambientes de Maquiné. Obviamente, minha visita foi incompleta. Ainda assim, sinto-me animada a incentivar os mais ousados a adentrar aquele universo misterioso e encantador, que levou milhões e milhões de anos para se formar e que somente há menos de dois séculos foi descoberto pela humanidade.  
Bem próximo dali e ainda mais perto de Belo Horizonte, está a gruta Rei do Mato, outro conjunto natural importante principalmente por descobertas arqueológicas recentes.
Minas é assim: anda-se apenas mais um pouquinho, que logo ali se descobre outra beleza, outra gostosura, mais conversa boa. Atrações interessantes “dão sopa” por aqui. Agora imagina só, compadre meu Quelémem,  se a gente fosse de contar vantagens...