segunda-feira, 30 de agosto de 2021

Agostos

  

Andamos procurando atenuantes para esses tempos difíceis. Acho consolo nas flores e nas palavras. Rubem Alves disse sabiamente:

“Uma das missões da poesia é colocar palavras no lugar da dor. Não para que a dor termine, mas para que ela seja transfigurada pela beleza.”.

Algumas catleas florescem 
em agosto




Nos agostos secos e empoeirados como costumam ser esses meses por aqui, somos reanimados pelas belezas das orquídeas, especialmente os dendróbios, que costumam ficar exuberantes nessa época do ano. Drummond outro mineiro mestre das palavra, certamente abalado pelas dores do seu tempo, declarou poeticamente: “Entre as desesperanças da hora, e à falta de melhores notícias, venho informar-lhes que nasceu uma orquídea” *. 

Os dendróbios são muito comuns
nesta época do ano

É verdade que boas notícias andam escassas, mas parece que as orquídeas nunca estiveram tão bonitas. Ainda bem que, apesar de tudo,  há cheiro de celogine no ar.

Celogine linda e cheirosa

 

·         (Carlos Drummond de Andrade em Nasce uma orquídea, crônica publicada originalmente no Jornal do Brasil em 1970).

segunda-feira, 26 de julho de 2021

ANA

 

    Não há nome mais singelo. Em nossa língua é um dos mais curtos. Sua simplicidade e pequenez, no entanto,  não  o fazem menor.

Em minha terra de nascença, seguindo a inspiração da padroeira, somos muitas Anas, por lá, um dos nomes mais comuns.  Em família, convivo com gerações de Anas: uma das bisavós paternas, tias dos  dois lados, cinco primas de primeiro grau, uma irmã e duas sobrinhas. As mais velhas se diferenciam pelos apelidos de Donana e Sanita. As da minha geração já começaram a ter nomes compostos, como Ana Eloiza e Ana Maria; as mais jovens, seguindo a moda de cada época, já são Ana Luiza e Ana Laura.

Compor esse estandarte foi um mergulho em minha ancestralidade. Criei uma representação das tradições, crenças e costumes que povoam minha infância e, consequentemente marcam  toda a minha história.

Foto: Luiz Henrique do Carmo

Santa Ana foi a mãe de Maria, Nossa Senhora, portanto, a avó de Jesus. Sua imagem aparece na arte sacra, quase sempre sendo representada como uma mulher de feições e semblantes suaves, tendo uma menina ao colo, e portando um livro.  A tradição popular, além de cultuá-la como a protetora das avós, atribui-lhe o poder de proteger os professores e todos aqueles que ensinam. Santa Ana  costuma ser mencionada como uma mulher à frente do seu tempo, pois segundo a tradição, teria ensinado sua filha a ler, a partir das Antigas Escrituras, em um tempo no qual, ter acesso ao conhecimento, não era comum às mulheres.

Para a composição dessa peça, utilizei uma das imagens mais comuns da Santa, impressa em tecido e acrescentei adornos  em crochê e retalhos bordados à mão, com referência ao alfabeto. Sendo parte de uma família de mulheres que tecem, costuram, bordam e ensinam, e, como mencionado, repleta de Anas, a inspiração veio fácil.

quarta-feira, 9 de junho de 2021

GUERRA PERDIDA

 Há anos famílias com pacientes portadores de doenças para as quais já ficou comprovada a eficácia do uso  da cannabis medicinal tem acompanhado desoladas o adiamento da legislação que regulamenta a produção, o processamento e o uso desse recurso, no Brasil. Finalmente ontem, a Comissão Especial da Câmara dos Deputados aprovou, numa votação apertada, o relatório favorável à regulamentação. (PL 399/15). 

Extrato de canabidiol
Foto Reprodução Wikipedia

O óleo de canabidiol (CBD)  tem sido utilizado para atenuar  sintomas de diversas doenças, melhorando a qualidade de vida de pacientes portadores de patologias que provocam espasmos e convulsões, bem como reduzindo mal estares e vômitos decorrentes de tratamentos de quimioterapia, além de outras indicações. Seu uso e aplicação vem sendo estudados cientificamente há bastante tempo, havendo já comprovação de eficácia em diversos casos e com efeitos colaterais praticamente sem relevância. 

Conhecida popularmente como maconha e marijuana a planta tem sido fumada há gerações, não constituindo crime o seu uso recreativo. Mas, paradoxalmente, enquanto o uso, no Brasil, não constitui crime, a produção e a comercialização sim. Dessa forma, as pessoas viciadas envolvem-se obrigatoriamente em ações criminosas para obter algo, cujo utilização em si, não constitui ilícito. Tais contradições parecem brincadeira, mas são apenas a ponta visível do Iceberg da hipocrisia que prevalece na discussão desse problema tão relevante sob diversos aspectos.


Meu grande mestre e amigo, Prof. Tancredo Almada Cruz, mais uma vez demonstrando sua sensibilidade e humanismo, posiciona-se aberta e corajosamente a favor da regulamentação da maconha no Brasil e o faz utilizando argumentos convincentes. Agradeço mais uma vez ao professor pela colaboração ao Blog e por ser fonte de inspiração para grande parte de seus ex-alunos e amigos.

 

GUERRA PERDIDA

 '                                        *Tancredo Almada Cruz

                                            cruztancredo@gmail.com

            Na década de 30, do século XX, vigorava em Chicago (EUA), a lei seca que proibia a comercialização de qualquer bebida alcoólica, restrição que provocou o consumo ilegal do produto.  A cidade se transformou em núcleo da bandidagem numa guerra contra o álcool. Quando a lei foi revogada a guerra acabou. Do vinho ao elegante licor, da cerveja a vodca, todas as bebidas, fossem fortes ou fracas, foram liberadas, o consumo foi regulamentado. O que era crime, virou negócio. Quem era um grande criminoso, virou um grande empresário, muitos deles multinacionais com ações na bolsa. Quem era pequeno criminoso, virou trabalhador.

            Alguns países, sobretudo da Europa, descriminalizaram a produção, distribuição e o consumo de drogas. Na América do Sul, o Uruguai fez o mesmo com relação à maconha. No entanto, a eficácia da legalização gerou controvérsias, uma vez que os traficantes dos países fronteiriços foram estimulados a adquirir a droga no Uruguai para distribuir no seu território. Assim, embora, no Uruguai, a medida tenha surtido efeito esperado, o tráfico nas fronteiras aumentou. 

        Nos anos 90, o percentual de fumantes no Brasil alcançava 36% da população adulta. Para combater o tabagismo, o Ministério da Saúde adotou medidas de regulamentação do consumo. Proibiu a propaganda e delimitou os lugares onde era permitido fumar. A política de combate ao tabagismo ficou sob a responsabilidade do Instituto Nacional do Câncer cujos relatórios periódicos demonstram o sucesso das medidas adotadas. O resultado foi uma redução considerável no número de fumantes. Hoje, eles representam cerca de 10% da população.

            Atualmente, vivenciamos uma guerra no combate às drogas, no Brasil, que mata mais do que o mal que se deseja combater. Em apenas um dia, na favela do Jacarezinho, no Rio de Janeiro, foram mortos 25 “suspeitos” e 1 policial. Pela legislação brasileira, consumir drogas não é crime. Entretanto, o dependente/usuário necessita se relacionar com o crime para adquiri-la. Muitas vezes, ele fica endividado e acaba praticando delitos para obter as drogas, tornando-se um criminoso. Geralmente é levado à prisão, sobrecarregando o já superlotado sistema carcerário nacional, envolvendo-se ainda mais com a criminalidade.

    Outra questão a ressaltar, é o peso relativo do Brasil para a América do Sul, grande dimensão territorial, populacional e econômica, além da forte participação no comercio exterior, o que torna o país uma importante rota para tráfico internacional.

    O que deve ser feito?! Vamos seguir o exemplo americano na década de 30 ou vamos seguir a regulamentação do Ministério da saúde brasileiro?  A conduta para superar a guerra às drogas deve ser uma combinação das duas políticas: legalização com regulamentação. O resultado esperado é o fim da guerra, transformando traficante em empresário, “soldados do tráfico” em trabalhadores e o crime em si em negócio com ações na bolsa. Fica claro que entre proibir ou liberar com responsabilidade, existe um abismo que significa continuar perdendo ou vencer essa guerra.

 *Economista, professor aposentado do departamento de economia da Universidade Federal de Viçosa/MG (UFV)

domingo, 30 de maio de 2021

CONVERSA DE JARDINEIROS – Muito Além das Flores e das Folhagens

 

Não somente com belas floradas e folhagens atraentes se faz um jardim bonito. Cada parte das plantas costuma oferecer seus próprios encantos, bastando nosso olhar atento.
    Raramente imaginamos que raízes podem ser elementos decorativos em jardins, até porque elas, em sua maioria, nem costumam ficar aparente, permanecendo sob a terra. Mas há belas exceções. A clúsea por exemplo, uma espécie brasileira, comum em manguezais e que foi alçada aos jardins pelas mãos de Burle Max, além de folhagens muito bonitas e flores também interessantes, chama a atenção por suas raízes aéreas muito ornamentais. Recentemente descobri um lindo “cortinado” composto por elas pendendo de uma pérgola, na entrada de um edifício. Suponho que o bonito efeito tenha surgido por acaso, pois somente um paisagista muito genial seria capaz de imaginar que, passado bastante tempo do seu plantio, um resultado tão elegante pudesse ser obtido naquele conjunto.  
Raizes da clúsea em pérgola
Por certo não é somente com a clúsea que jardins bonitos se tornam mais atraentes por contar com espécies de raízes ornamentais. O pândanus, por exemplo, lança suas raízes  a alturas superiores a um metro a partir do chão, ampliando a atração da planta que possui bela folhagem e tronco também muito interessante.
Pandanus e suas raízes atraentes

    Tão inesperados quanto as plantas se tornarem atraentes por suas raízes, caules também  costumam ser pouco reparados, a não ser em espécies como os cactos, por exemplo. Mesmo para aqueles que, assim como eu, não gostam de cactos, é possível encontrar atrações paisagísticas em troncos. A Melaleuca quinquenervia, conhecida popularmente como casca de papel,  impressiona pela beleza de seu tronco, com cascas que se dispõem em camadas, embora suas flores brancas sejam igualmente bonitas. Há, além de muitas outras, o brasileiríssimo pau mulato, uma árvore de grande porte, cujo tronco costuma parecer uma pintura abstrata formada por sua casca de cores variadas. Muitas fotos dessa espécie que aparecem na internet costumam ter sido “tratadas” com recursos de edição de imagens, numa clara demonstração do quanto algumas pessoas são enganadoras e não se contentam em mostrar o que de bonito existe na natureza, sem adulterar.  

Maleleuca, ou casca de papel
(Foto Rosilene Salomé)
Pau Mulato, espécie brasileira
de tronco ornamental

   
 Exaltar a beleza das folhagens como recurso paisagístico é bastante comum, tendo em vista que essa parte das plantas é muito utilizada para embelezamento de canteiros, maciços, cercas vivas e outras partes dos jardins. As folhas, assim como as flores,  são as partes das plantas que mais frequentemente constituem o repertório de paisagistas e jardineiros como recurso de embelezamento dos espaços. Como a maioria das plantas não fica florida o tempo inteiro, associar a possibilidade de  belas folhagens torna-se quase sempre uma opção interessante para compor jardins.

Coleus, ou coração sangrento
faz bonito nos jardins
Cordiline, folhas de cores atraentes

Embora eu não me canse de repetir que é possível encontrar belos jardins sem flores, essas, quase sempre, são vistas como sinônimos desses espaços. Obviamente tal associação não é feita por acaso. Flores são bonitas, tem cores e formas exuberantes, costumam ser perfumadas, atraem insetos e pássaros, propiciando novas cores e movimento, enfim, enfeitam e enriquecem qualquer jardim. As opções de espécies florais são inúmeras, o que facilita a escolha, de acordo espaço disponível e as condições do terreno, além de outros fatores.

A impressionante florada da
Neve da Montanha
Um lindo canteiro de Malmequer

Frutos e sementes podem ser belíssimos e funcionar como uma das partes mais atraentes de algumas plantas. É interessante e até comum utilizar pés de amoras, jabuticabas, acerolas,  carambolas e seriguelas  em jardins, onde essas plantas cumprem o duplo papel de alimentar e adornar.  Mas não fica por ai. Embora pouca gente repare, as palmeiras, por exemplo e de forma geral, costumam apresentar cachos  lindamente ornamentais, com cores e formatos bastante variados.Interessante mencionar o Pingo de ouro, uma espécie muito utilizada como folhagem e em cercas vivas e para bordaduras de canteiros. Ele  possui como principal atrativo os seus lindos cachos dourados, que inspiram seu nome popular.


Pingo de Ouro (duranta) e seus
cachos dourados


Cauabori, frutinhos azuis

Outras plantas de frutificação atraente e colorida têm despertado interesse paisagístico mais recente, como é o caso do cauabori e do urucum, ambas frutos com nomes indígenas. Esse último, mais comum de ser visto em hortas e quintais, passou a ser encontrado também em jardins e não sem motivo. Além de belas flores cor de rosa, seus frutos dispostos em cachos vermelhos são bonitos e constituem a maior atração da planta. Já o cauabori, que se destaca por seus frutinhos azuis, é planta rasteira e desponta como uma espécie com potencial para ser utilizado como planta pendente em vasos e jardineiras.

Encerramos por hoje nossa conversa de jardineiros, incitando os amantes da natureza a lançarem seu olhar não apenas às folhagens e flores. Verão que, muito além dos poucos exemplos mencionados, há um mundo de beleza a ser descoberto nas outras partes das plantas.

quinta-feira, 13 de maio de 2021

Porque é Maio

 Meu Rosário

Conceição Evaristo

Meu rosário é feito de contas negras e mágicas.
Nas contas de meu rosário eu canto Mamãe Oxum e falo
padres-nossos, ave-marias.
Do meu rosário eu ouço os longínquos batuques do
meu povo
e encontro na memória mal-adormecida
as rezas dos meses de maio de minha infância.
As coroações da Senhora, onde as meninas negras,
apesar do desejo de coroar a Rainha,
tinham de se contentar em ficar ao pé do altar
lançando flores.
As contas do meu rosário fizeram calos
nas minhas mãos,
pois são contas do trabalho na terra, nas fábricas,
nas casas, nas escolas, nas ruas, no mundo.
As contas do meu rosário são contas vivas.
(Alguém disse que um dia a vida é uma oração,
eu diria porém que há vidas-blasfemas).
Nas contas de meu rosário eu teço entumecidos
sonhos de esperanças.
Nas contas do meu rosário eu vejo rostos escondidos
por visíveis e invisíveis grades
e embalo a dor da luta perdida nas contas
do meu rosário.
Nas contas de meu rosário eu canto, eu grito, eu calo.
Do meu rosário eu sinto o borbulhar da fome
No estômago, no coração e nas cabeças vazias.
Quando debulho as contas de meu rosário,
eu falo de mim mesma em outro nome.
E sonho nas contas de meu rosário lugares, pessoas,
vidas que pouco a pouco descubro reais.
Vou e volto por entre as contas de meu rosário,
que são pedras marcando-me o corpo-caminho.
E neste andar de contas-pedras,
o meu rosário se transmuda em tinta,
me guia o dedo,
me insinua a poesia.
E depois de macerar conta por conto do meu rosário,
me acho aqui eu mesma
e descubro que ainda me chamo Maria.
               (Poemas de recordação e outros movimentos, p. 16-17)

Disponível em : http://www.letras.ufmg.br/literafro/autoras/11-textos-dos-autores/924-conceicao-evaristo-meu-rosario.  Acesso em 07-04-2021