domingo, 16 de agosto de 2026

PAIXÃO

 

Tenho pânico, medo, fobia

Incontrolável confusão

Quando a angústia principia

Não encontro solução.

A não ser que você venha  

Segurar em minha mão.

 

Seu abraço é um milagre

Para o qual, não há explicação

Se o seu calor me acolhe

Sinto conforto na hora

Experimento segurança e consolo

De impossível elucidação.

 

O seu corpo é um prodígio

Sua presença um fenômeno

Seu sorriso, uma solução

Me acalenta sua companhia

Como se  fosse leve a vida

Amar-te é minha única opção.

 

 

terça-feira, 28 de abril de 2026

O FIM DO MUNDO NÃO VAI ACABAR

Pode parecer contraditório, ou até errôneo o título dessa postagem, mas não. É de propósito que escrevo e não quero dizer que o mundo não vai acabar...
Gosto muito das fábulas. São, no geral bastante educativas, embora algumas das bem famosas tangenciem ideias preconceituoosas e optem por um moralismo exacerbado. Tais histórias, cujos personagens são geralmente animais, vem sendo perpetuadas ao longo dos anos e muitas têm autoria desconhecida.

A capa do livro

Jamais imaginei que um dia eu, que tanto gosto de escrever e inventar histórias me tornaria personagem de uma fábula moderna. E pasmem: na mata de Bel e Cloé sou uma arara azul. E antes que me perguntem o porquê de tanto entusiasmo, relembro para os que não sabem: ela é rara,  endêmica do Brasil, azul da cor do céu,  linda e faz a alegria da Mata Atlantica e do Cerrado brasileiro.

Os animais dessa animada fábula são todos fabulosos. Sonhadores, criativos, amorosos e cheios de esperança, afeto e sabedoria. Não há contraponto melhor para as agruras do mundo atual. E, do alto do meu invencível otimismo, declaro: enquanto houver gente criando e contando histórias, fazendo músicas, plantando árvores e cultivando amigos, NÃO, o mundo não vai acabar. E vamos encerrar logo com essa história de fim de mundo.

Essa personagem sou eu





quarta-feira, 4 de março de 2026

Publicado em seu livro Bagagem de 1976,  Bilhete em papel rosa, dedicado pela autora ao seu "amado secreto Castro Alves", faz,  neste ano, meio século de existência. Sendo essa obra de Adélia Prado uma das minhas preferidas, trancrevo a poesia aqui no blog propondo uma reflexão sobre o valor de uma obra de arte. 
Quando pensamos em um quadro, uma escultura e outros objetos tangíveis, há um mercado de artes que costuma atribuir valor a tais criações, chegando algumas a ter preço inestimável, tal a relevância do artista no contexto da história da arte e o significado atribuido à peça, constituindo esse assunto quase que um mistério para os comuns dos mortais.
Isso me leva a pensar: quanto vale um poema e a sensação que ele é capaz de provocar em milhares, talvez milhões de pessoas que, mediante a leitura encontram encantamento, beleza e transcedência nesse arranjo de palavras quase milagroso?
Recentemente publiquei um livro de poesias e um amigo escreveu-me dizendo que  meus textos fizeram-no lembrar de Adélia Prado.
Nem preciso dizer que fiquei metida. Principalmente porque esse amigo é um escritor e dramaturgo respeitado. 
Então para que outras pessoas possam usufruir dessa beleza, compartilho aqui o 


Bilhete em Papel Rosa

Quantas loucuras fiz por teu amor, Antônio.
Vê estas olheiras dramáticas,
este poema roubado:
“o cinamomo floresce
em frente ao teu postigo.
Cada flor murcha que desce,
morro de sonhar contigo”.

Ó bardo, eu estou tão fraca
e teu cabelo é tão  negro,
eu vivo tão perturbada, 
pensando com tanta força
meu pensamento de amor,
que já nem sinto mais fome,
o sono fugiu de mim. 

Me dão mingaus,
caldos quentes, me dão prudentes conselhos,
eu quero é a ponta sedosa do teu bigode atrevido,
a tua boca de brasa, Antônio, as nossas vidas ligadas.
Antônio lindo, meu bem,
ó meu amor adorado,
Antônio, Antônio.
Para sempre tua.

(Publicado originalmente em 1976, no livro Bagagem)



domingo, 31 de agosto de 2025

SEGREDO - Uma Amostra do que vem por ai

 Segredo


Escrevo

E me liberto do medo

Do velho segredo

A ser revelado

Andarei desnuda

Em praias povoadas.


Fez-se carne o verbo.

O corpo se mestra, 

De palavras feito.

Imperfeito.


Livre, arremessa

A buscar o infinito

Que pode pertencer

Às palavras bem ditas.


Assim uma fera desperta, 

Emancipada e corajosa,

Que tem força e ousadia

Para nascer e morrer

Yauaretê.






sábado, 26 de julho de 2025

SALVE SANT´ANA, SALUBÁ NANÃ, BENÇA VÓ!

 

 Sant´Ana, mãe de Maria e avó de Jesus, é considerada, segundo as tradições católicas, como a padroeira das avós. É vista como  uma mulher à frente do seu tempo, pois, segundo a tradição, teria ensinado a sua filha  a ler a partir das Antigas Escrituras. Como não era costume à época que mulheres fossem alfabetizadas, Sant´Ana é vista como uma precursora no ensino,  padroeira e protetora dos professores.

Senhora Sant´Ana é uma santa muito cultuada em todo o estado de Minas Gerais. Em Almenara, no norte mineiro, as lavadeiras de roupas cantam em sua homenagem nas beiras do rio:

Senhora Santana ao redor do mundo

Aonde ela passava deixava uma fonte

Quando os anjos passam bebem água dela

Oh que água tão doce, oh senhora tão bela.

(...)

Santa padroeira de Guaraciaba (MG), minha terra natal, cujo povo lhe cultiva uma grande devoção, tem a sua festa no dia de hoje, 26 do mês de julho. Vindas de muitos lugares, pessoas com origem familiar no município e no seu entorno comparecem ao evento de grande significado cultural para a cidade.

Nas religiões e crenças de matriz africana Snat´Ana  é sincretizada como Nanã, e  venerada como a mais antiga e sábia das orixás.  Representa a origem da vida, sendo  associada à terra, aos pântanos e águas paradas. Ela simboliza a  ancestralidade, pois é uma das responsáveis pela criação da humanidade, sendo respeitada como portadora de grande poder e sabedoria. Tem a missão de protege os idosos e os doentes e cuida também de fortalecer nossa relação com a natureza.

Sant´Ana, arte em madeira, com utilização
de pigmentos naturais e sementes.
Autor: Marcelo Oliveira 

  

  

 

 

 

sexta-feira, 21 de março de 2025

SÃO JOSÉ

 UM HOMEM


(Uma missão enorme. Para quem queria apenas. Em sua humilde oficina.  Praticar a carpintaria.).


São José é considerado o protetor da agricultura, o  patrono das famílias e dos operários. É também  referência para os artesãos e todos que praticam manualidades. 

Segundo a crença, quando há chuva no dia 19 de março, dia dedicado ao santo,  é porque será um ano de boas colheitas e de fartura alimentar.

Cultivar crenças e tradições não impede que sejamos pessoas do nosso tempo. Não há contradição nisso.

Nossas raízes e origens nos sustentam, nossa ancestralidade orienta nossa trajetória.

Somos natureza, somos árvores, e cultivamos fé e esperança.

Podemos renascer viscejados e fortalecidos após golpes de machado.  




quinta-feira, 30 de janeiro de 2025

RESENHA DE LIVRO

 

ANNIE ERNAUX -  A Escrita como Faca e Outros Textos

O livro tem início com a conferência proferida pela autora, por ocasião da entrega do  Nobel de Literatura a ela outorgado no ano de 2022. Ao justificar a concessão do prêmio, a Academia sueca exaltou a “coragem e acuidade clínica a qual ela revela as raízes, os estranhamentos e as limitações da memória pessoal”.

Reprodução Editora Fósforo (divulgação)

Nascida em Lillebone, uma comunidade remota da França, no ano de 1940 e filha de uma família extremamente simples, Annie Ernaux estudou, trabalhou e vive em Paris. Desde o seu primeiro livro publicado aos 34 anos, Os armários vazios, a autora trata de acontecimentos pessoais e o faz com sinceridade singular.

Em uma de suas obras mais contundente, A escrita como faca, ela esclarece sua pretensão de “Mergulhar no indizível de uma memória reprimida...” e  declara que  se propõe a “... inscrever minha voz de mulher e de trânsfuga social naquilo que sempre se apresenta como um lugar de emancipação: a literatura” (P. 21).

Tendo, como a maioria dos escritores, a leitura como a base de seu produção literária, ela descreve o ato de escrita como um imperativo de sobrevivência, ao mesmo tempo em que provoca angústia e sofrimento ao autor. “A leitura nos alimenta, pode nos salvar do processo tortuoso e torturante da escrita e nos dar força para seguir em frente” (P.25). 

O escritor, segundo Annie, é o “andarilho insensível dos latidos”.  A autora está se referindo à independência e à altivez necessárias ao escritor para dar continuidade à sua jornada, lembrando o dito popular ‘Os cães ladram, e a caravana passa’.

 O seu amor à  literatura é expresso e exaltado; considera essa última como um dos aspectos da realidade que a faz inserir-se na  vida e no mundo, ao mesmo tempo em que afirma não sentir necessidade de teorizar sobre isso. “Não defino a literatura, não sei o que ela é” (P.42).  “Sinto a escrita como faca, é quase como a arma de que preciso” (P.47).

A escrita e a literatura aparecem para a autora com a esperança de se libertar sozinha de seus problemas, da dor de viver e, ao mesmo tempo, ser reconhecido pelos outros, o grande prêmio psico-simbólico (P. 64).

Annie Ernaux faz um entrelaçamento entre a sua vida e a escrita, criando uma costura perfeita entre os dois aspectos. Como acontecimentos da vida da escritora  constituem temas para seus livros, nota-se que viver e escrever para ela, são aspectos indissociáveis. E, ao escrever sobre acontecimentos de sua vida, acaba tocando em temas universais. “Escrever sua vida, viver sua escrita”. Para ela, escrever é uma maneira de existir. E com sua escrita acredita “vingar sua raça”, ou seja, atenuar dores e sofrimentos decorrentes de suas origens e condição social. A coragem é a marca definitiva de Ernaux, pois não se furta de abordar temas considerados tabus.

Em sua última parte, o livro traz a palestra feita pela autora em sua pequenina cidade natal. Uma das passagens memoráveis, em minha opinião, é  quando ela menciona: “....se vinguei a minha raça como declarei que faria... isso é muito ambicioso. ... alguns dos meus livros permitiram às pessoas tomar consciência de coisas que elas não ousavam pensar, se sentir menos sozinhas, se sentir mais livres, talvez, e por isso mais felizes” (P. 227).

Para quem gosta de ler e escrever, como é o meu caso, o livro é um ‘prato cheio’, indiscutivelmente, uma das pérolas literárias dos últimos tempos, que merece ser apreciado como se degusta uma iguaria nobre.

ERNAUX, Annie. A escrita como faca e outros textos. Trad. Mariana Delfini. São Paulo: Fósforo, 2023.

 



domingo, 29 de dezembro de 2024

VIRADA DE ANO

 

A realidade precisa ser completada pela ficção para tornar a vida mais fácil ...”.  (Pedro Almodóvar, em O último sonho. Cia das Letras, 2024. P. 93)

 

Na primeira hora 12 do dia, já era noite, naquele tempo tomado por densa escuridão. A mulher se percebeu assustada, não apenas com o fenômeno, também pela indiferença geral em volta.

Na rua como de hábito, a maior frequência de carros, devido à abertura dos portões da escola, na via de cima.

Exalava-se o cheiro habitual de fritura, no restaurante próximo que cumpria rotineiramente o horário de almoço, confirmado pelo intenso movimento de pessoas saindo e entrando dos carros que disputavam ansiosos uma vaga.

Sem se importar com a escuridão, as flores da onze horas do canteiro anexo à casa ostentavam plenas suas sedosas pétalas coloridas e brilhantes.

Chegando do trabalho suada, a filha lavou displicentemente as mãos e sentou-se à mesa do almoço, no mesmo ritmo de outras épocas. De vez em quando interrompia a refeição e dava olhadas no aparelho. Numa uma dessas, pousou os talheres à mesa e, ao que parece, respondeu uma mensagem.

Curiosa porém contida com a indiferença da moça às mudanças do tempo, a mulher levantou-se da mesa e recolheu com displicência as louças e talheres, depositando-os na pia.

Do lado de fora, deu comida ao cachorro e renovou a água da vasilha.

Ainda cansada da rotina dos festivos dias anteriores, dirigiu-se ao quarto e acendeu as luzes sem saber se deveria ingerir os medicamentos da noite. Escovou os dentes e cumpriu o ritual das loções e dos cremes antirrugas. Antes de deitar, deu uma olhada no aparelho, onde havia uma mensagem dessas emitidas por dispositivos automáticos, confirmando seu horário de atendimento com a doutora Diana, para as quatro da tarde.

Sentia-se muito confusa, mas precisando dormir.  Disposta a cumprir seus compromissos, a mulher programou o aparelho para acordá-la às 15: 00 h.

Não chegou a dormir profundamente, mas teve um pesadelo no qual comparecia nua ao salão de cabelereiro, para pintar as unhas. A recepcionista, os demais profissionais do estabelecimento, assim como os frequentadores encontravam-se vestidos como de costume e não manifestaram estranheza diante de sua nudez.

Levantou-se da cama, perdida no tempo, e se arrumou com pressa, saindo de casa pela porta da garagem.

No consultório odontológico onde chegou à recepção esbaforida e confusa, tudo parecia normal. O sorriso muito branco da assistente dava um bonito contorno ao anúncio de que a doutora estava 15 minutos atrasada. O barulho inconfundível do motor, vindo da sala de atendimento demonstrava que a dentista ainda cumpria a rotina de tortura com o cliente do horário anterior. Há trinta anos ela era paciente desse mesmo consultório. Endereço, equipamentos e assistentes mudaram. No entanto, o motor ainda parecia o mesmo, emitindo o seu infernal ruído.

Não demorou a ser chamada. A visita ao consultório constou de um pequeno procedimento de reconstituição de uma obturação que havia se trincado. Enquanto era atendida, imóvel e de boca aberta, ficou se perguntando se antes era comum que os dentistas trabalhassem com escuro.

Consultou o relógio que teimava em manter no pulso, ao sair para a rua. Para quase todo mundo esse era um objeto estranho e fora de moda. Cinco horas e o dia clareava. Desde o Natal a chuva não dera trégua e diferentemente dos dias anteriores, o sol se ostentava no alto dos morros e no topo dos edifícios. Cheiro de pão fresco saindo do forno exalava de algum estabelecimento fechado. Ônibus passavam lotados e ela não soube precisar se as pessoas iam ou vinham do trabalho.

Como se houvesse acabado de chegar em um país distante, cujo fuso horário confundia as percepções, foi para casa, com uma ligeira sensação de náuseas. Não soube precisar se deveria ingerir os medicamentos do horário matinal. Observou que as lixeiras em frente das casas começavam a receber os sacos pretos de sempre, dessa vez, repletos dos sinais de exageros cometidos pelas pessoas nos feriados do final do ano.

A filha chegava do trabalho que habitualmente se encerrava às 18:00 h. Anunciou que a partir desse ano novo, com as mudanças nos horários não haveria mais os intervalos de almoço. O Comitê Internacional de Registro do Clima Tempo concluíra, após estudos exaustivos e comprovações científicas testadas, que a terra passara a dar a volta em torno de seu próprio eixo em 12 horas. A mudança vinha sendo gradativa e quase imperceptível pelas pessoas que viviam sem tempo para nada.

A mulher tomada pela estranhamento, preparava um chá de camomila cujo cheiro imprimia um clima de antiguidade pela casa.  

Enquanto jantava, a moça anunciou que o enteado de três anos de idade fora presenteado com um aparelho e que, a partir de então, não precisaria mais receber orientações dos pais ou de quem quer que fosse, a não ser do sistema.  As escolas seriam abolidas em breve, sendo mantidos, no entanto, os berçários e creches.

Lá fora trabalhadores da companhia de saneamento enchiam às pressas o barulhento caminhão caçamba.  Carros e motos buzinavam na rua, como se isso fosse organizar o trânsito caótico da cidade. Havia mais pressa que nunca. No parque em frente, os corredores habituais praticavam seus exercícios físicos. Todos pareciam zumbis. O “admirável mundo novo” havia chegado.

 

 

 

 

 

sábado, 30 de novembro de 2024

Recortes e Retalhos


Fez-se carne o verbo:

Corpo.

De palavras feito.

Imperfeito.

= --- =

Escrevo.

E me liberto do medo.

do velho segredo.

Andarei desnuda

Em praias povoadas.


= --- =

Nesse turbilhão de palavras,

Barulhos, notícias, pedidos, 

Compromissos, zumbidos

Sigo à procura da poesia

Pepita que brilha

Entre o desejo e a lama

Ela permanece escondida.

= --- =



Se Picasso já pintava
Cinco telas num só dia
Mesmo com poucas palavras
Saio a fazer poesia.
Pegando pedaços e cacos
De uma louça quebrada
Tentando fazer com as letras
Um gaudiano mosaico.
Ou com bordados no pano
Encarnar Bispo do Rosário.

= --- =

Enquanto procuro na areia
Seixos rolados,
Lascas de malacacheta.
Encontro poesia e vida
em um ovo de lagartixa.

= --- =

Entre matos e pedras
Dias e dias
Noites de agonia
Pesadelos
Nem poemas, nem alegria
Um bloco de rocha prostrava
Irremovível.
O sol o beijava de dia.
À noite o sereno umedecia
Um ralo musgo se formava
Com folhas secas quebradas
Que o tempo enegrecia.
E no silêncio da madrugada
Pequena semente nascia 
À espera do sol que viria 
Para energizar sua vida.
 

quinta-feira, 31 de outubro de 2024

VIAGEM A ARACAJU E ARREDORES

 


“Ninguém ouviu um soluçar de dor

No canto do Brasil.

Um lamento triste sempre ecoou

Desde que o índio guerreiro foi pro cativeiro

E de lá cantou

Negro entoou, um canto de revolta pelos ares

Do Quilombo dos Palmares...” (Canto das três raças de Paulo Sérgio Pinheiro, com música de Mauro Duarte e interpretação mais conhecida na voz de Clara Nunes).

         Há algum tempo, passei por Sergipe, a caminho de Recife (PE). Ficou a vontade de voltar para conhecer melhor o estado, convicta de que o Nordeste brasileiro sempre vale bons passeios, com muita praia bonita, gente hospitaleira e cultura rica. Agora, finalmente fui para ficar um período de sete dias.

Lagoa linda e limpa em frente à praia do Atalaia

A  palavra Sergipe, tem origem na língua tupi e significa rio dos siris.  O nome passou por variantes Cirizipe e Cerigipe que significa ferrão de siri, numa referência ao cacique Serigy, um dos valentes guerreiros que lutaram contra o domínio ibérico.

Estátua em frente ao Museu da Gente Segipana


Embora a herança indígena esteja por todo o estado, os habitantes originários foram praticamente dizimados. Seu povo vivia entre os atuais rios Vaza-barris e Sergipe, onde está Aracaju. Depois de três décadas de luta, em 1590, foram vencidos pelos invasores que fundaram a capitania de Sergipe del Rey. 

No entanto, a herança indígena continua forte em todo o estado. A capital guarda em seu nome o significado de origem tupi-guarini, (Ará, papagaio e  Acaiú, fruto do cajueiro), que resultou em Aracaju, ou cajueiro dos papagaios.

São Cristóvão, a quarta cidade mais antiga do Brasil, foi a primeira capital do estado. Construída em estilo espanhol, hoje tombada como patrimônio nacional e pela UNESCO, a cidade e seu  centro possuem grande valor histórico e cultural e as construções do período colonial encontram-se em bom estado de preservação. Ai encontramos artistas de renome como o xilogravurista Arnaldo Oliveira, que nos recebeu carinhosamente em seu ateliê. Da mesma forma fomos tratadas na Casa dos Saberes e dos Fazeres pelas suas simpáticas bordadeiras e pelo Sr Jorge dos Estandartes que aos 88 anos é ícone da cultura popular, e compõe mantos e outras lindas peças artísticas.

Praça de São Francisco em São Critóvão


Arte têxtil elabora por Sr Jorge dos Estandartes

Os locais por onde andamos valem muito a pena de serem apreciados. A cidade de Aracaju encontra-se limpa e bem cuidada. Foi planejada e possui um plano diretor que estabelece limites à especulação imobiliária. Os rios não são poluídos e possuem matas ciliares preservadas. Há praias de mar e de rios espalhadas por diversas áreas. A proximidade com o estado da Bahia permite visitas à praia do Saco e Mangue Seco. Próximas ao local onde nos hospedamos, Atalaia, Aruana e Mosqueiros são ótimas opções.

É compensador também pegar a lancha na orla do pôr do sol e fazer um passeio à Croa do Goré, um banco de areia no encontro do rio com o mar, que propicia horas de banho de águas mornas e limpas, vista linda dos mangues que beiram o rio. Quando tais encantos são apreciados juntamente com a caipirinha de frutas e os variados tira-gostos disponibilizados nos barcos bar, ou na única barraca do local, ficam inigualáveis. O barco bar e a barraca permanecem ancorados até  próximo ao final da tarde, quando a maré sobe implacavelmente expulsando a gente daquele paraíso.

Da mesma forma, andar um pouco mais por estrada, pegar o barco na praia do saco e depois o buggy pelo caminho de areia para alcançar as praias de Mangue Seco, no estado da Bahia, é um passeio relativamente fácil para quem está hospedado em Aracaju. Incluir uma parada na ilha da Sogra, na volta, incrementa ainda mais um dia cheio de aventuras e pleno de paisagens deslumbrantes.

Mangue Seco (BA) e seus coqueirais

Saco de Bode: essa
linda planta dá nome
à praia do Saco

Tanto o museu da Gente Sergipana, quanto o Memorial de Sergipe Prof Jouberto Uchoa, são bons espaços para imersão histórica e cultural do Estado. Especialmente o primeiro, com o acervo de réplicas das obras de Arthur Bispo do Rosário, juntamente com as estátuas gigantes de figuras do folclore de Sergipano na parte externa, me encantaram de maneira singular.

Para sintetizar, a viagem ao Sergipe e ao pedacinho da Bahia nos permitiu observar que é uma região plena de atrações turísticas, tem um povo muito hospitaleiro e uma cultura muito rica. Entretanto, percebe-se que a distribuição de renda é injusta como em todo o Brasil e que o povo “canta de dor”, sem perder de vista sua memória, e sua valiosa ancestralidade.

Voltamos revigoradas por apreciar mais um pouco da cultura e das imensas belezas desse nosso país, sem deixar de sentir, no entanto, repercutindo nos ouvidos, o eco dos clamores de seu povo.

Cacique Serigy vive! E sua luta nos encoraja.

Bispo do Rosário vive! E sua arte nos inspira.


Com as bordadeiras da Casa dos 
Saberes e dos Fazeres em São Cristovão

Com o mestre Nivaldo e companheiras de
viagem em São Cristóvão

segunda-feira, 27 de maio de 2024

A TRILHA


Dirigia o automóvel na via esburacada, com curvas e morros. Pedras mal encaixadas, musgos de aspecto úmido e escorregadio.  De um lado, a elevada montanha, do outro, o precipício escuro e sombrio.

Em contraste à rudeza do cenário, ela se vestia a rigor como para um baile antigo. Maquiada e de salto alto, a roupa escura e apertada, com dourados detalhes: bela e desconfortável.

Depois, ela montava um cavalo musculoso, de pelos escovados e crina aparada, e seguiam por uma trilha. Montanhas e precipícios mais próximos. O percurso exigia esforço de ambos.  Botas desconfortáveis torturavam os femininos pés, enquanto ela se indagava como iria a um baile de gala assim vestida. A hora se aproximava impiedosa, o tempo ia se escapando à velocidade da luz.

Aves de rapina cortavam os ares. Com medo, ela se persigna e encara afinal o acontecimento. Músicos exaustos, copos vazios e cinzeiros cheios. Flores murchas pendiam dos vasos. Na pista lateral, jovens dançavam um funk obsceno.

Nos portões de acesso surgem bandos de crianças que vão ocupando o espaço; aulas e brincadeiras começam e pessoas são expulsas por vigias truculentos. Não cabem reclamações ou protestos: tudo estava previsto no estatuto.

Estrada e trilha, automóvel, animal, nada mais havia. Agora avisam que ali não toleram anarquistas

domingo, 28 de abril de 2024

CRÕNICAS DO DIA A DIA

 

MEU AMIGO VALDO

 A campainha toca e eu chego à janela.

- Dá dois real ai vó.

Me senti a maior das ultrajadas. Era um homem preto, apavorado, descalço e sem camisa. Disfarçando pecados mais graves e preconceitos enraizados, retruquei em nome da vaidade:

- Não tenho idade para ser sua avó não, moço. Quantos anos você tem?

- Ah então tá titia dá dois real  meu nome é Valdo e tenho 37.

A nota que entreguei ao sujeito magro e sarado estava amassada e sem cor como quase todas de pequeno valor, que por aí ainda circulam, como símbolo de resistência nesses tempos de valores virtuais.

Fiz um amigo. Ou melhor, ganhei um parente, daqueles que ainda visitam a família com regularidade. Quase todos os dias ele passa quando o sol está a pino. Costuma voltar ao final da tarde e pode aparecer até à noite.

Já me contou que seu nome completo é Riovaldo dos Santos Silva e percebo que o quase xará do filósofo sertanejo é mais agitado do que eu. Mesmo raramente,  costuma aparecer fora de horas. Nessas ocasiões  vem ainda mais falante e gesticula com intensidade cabeça e braços. A respiração ofegante. Pudera. Além de andar muito, sobe o morro que dá acesso ao bairro, quase sempre às pressas. Parece acompanhar com os passos o ritmo da fala e expressa seu taquipsiquismo claramente, quando dá notícias de todos os infortúnios da cidade. Por volta do meio dia atendo a campainha.

- É eu titia.  Mataram um agora lá no Rebenta, me dá cinquinho preu almoçar.

- Credo, Valdo, para de espalhar notícia ruim. Hoje não tem cinco, mas você tá quase com sorte, vão aí duas de dois. E entrego as notas amassadas.

Mesmo que abomine as páginas dos crimes dos jornais, ando atualizada de todas ocorrências violentas. E fico sabendo, segundo Valdo noticiário, que naquela semana foram pelo menos mais dois crimes chocantes.

- Um sujeito da APAC foi degolado agora  pouco, titia. Até os polícia  anda com medo. E uma moto passou por cima de um senhor que tava na faixa em frente ao supermercado. Mesmo atravessando certo, o pobre morreu na hora. Dá dois real aí titia.

Quando informo que hoje tô sem dinheiro algum, ele pede uma água. Ainda bem que ultimamente parece mais calado. Entretanto não deixou de dizer que o pai dele queria bater na sobrinha por causa de um pedaço de carne. E arrematou: - tem muita violência pro todo lado, titia.

Ando sorumbática, sem disposição para tanta notícia ruim. No entanto, sinto falta quando ele desaparece por vários dias.

- Você sumiu, Valdo. Comento quando ele ressurge tocando a campainha.

- Tudo bão, titia? Me arruma um dez, ainda num almocei. E já saindo às pressas com o cinquinho que lhe entrego, avisa de longe: sumi porque arrumei uma namorada lá em Araponga.

sábado, 30 de março de 2024

SOBRE PLANTAS E INTELIGÊNCIA

 

        A reforma do pensamento requer um questionamento radical que desanima as pessoas(Edgar Morin, em Meus Demônios. Bertrand Brasil, 2000, p. 185).


Resenha do livro: Revolução das Plantas Stefano Mancuso. São Paulo: Ubu Editora, 2019.


 A não ser pelo fato de que ambos são seres vivos, animais e plantas diferem-se de tal maneira que pode-se  chegar a crer que além dessa característica, nada mais possuam em comum. Enquanto animais, no geral locomovem-se e precisam buscar sua comida  para sobreviver, as plantas  fabricam seu próprio alimento e são entes de estruturas fixas. Além dessas destacadas diferenças, a incapacidade de aprender, dada a ausência de memória no mundo vegetal, vinha sendo considerada particularidade determinante a distinguir entre os dois entes.

O livro Revolução das plantas do biólogo e pesquisador italiano Stefano Mancuso, publicado no Brasil pela Editora Ubu,  apresenta um novo olhar sobre o reino vegetal, com conceitos e ideias muito surpreendentes para a maioria das pessoas.

O livro recebeu o prêmio Galileo de
divulgação científica no ano de 2018

O autor informa que o comportamento de plantas vem sendo estudados pela ciência desde pelo menos o século XVIII,  e que afinidades entre os reinos animal e vegetal no que concerne à capacidade de cognição e aprendizagem das plantas vem sendo descobertas desde então.

Perguntando se é possível existir memória sem  cérebro, esse livro nega o conceito de passividade das plantas, ao afirmar que elas são formas de vida  bastante sofisticadas. Por apresentarem comportamentos interessantes, ainda que não possuam cérebro, encontram formas particulares de criarem e reterem memórias, sendo capazes de assumir novos comportamentos.  

Também as plantas podem praticar o mimetismo a seu favor, fortalecendo a capacidade de sobreviver e surpreendendo-nos com o quanto têm a ensinar. A busca pela sobrevivência e pela evolução ao longo dos anos dotaram as plantas de sabedorias milenares que, ao serem descobertas tem surpreendido cientistas em todo o mundo. Comportamentos tão aprimorados das plantas podem e vem sendo utilizados para inspirar soluções para problemas humanos de alta complexidade. Mais recentemente suas estruturas e propriedades têm sido utilizadas até para a construção de protótipos  de sondas de exploração espacial. Os chamados robôs plantóides já estão sendo utilizados experimentalmente por laboratórios da NASA, com perspectivas de uso na busca de conhecimentos sobre outros planetas.

A maneira como as plantas coexistem na natureza e convivem com as diferenças, colaborando entre si no processo evolutivo, desenvolve uma espécie de inteligência coletiva,  que favorece a sobrevivência e  inspira estudos sobre  novos sistemas de governança cooperativa baseada na  descentralização como em uma árvore, por exemplo, e não com funções e atribuições dispostas em hierarquias. O autor enaltece tais características expressando o conceito de democracia verde, apontando como  modelo de gestão do futuro.

As palavras chaves da ficha catalográfica do livro são: Ecologia, Biologia, Ciências Sociais e Robótica; a obra contem relatos de diversas experiências científicas, discorre sobre propriedades e funções de órgão das plantas e de mecanismos que envolvem complexos emaranhados de reações físicas e químicas que ocorrem no seu interior. Ainda assim, a  leitura é acessível aos leigos, sendo, ao contrário do que se possa pensar ao início, muito didática e interessante. Em algumas partes, como no último capítulo, por exemplo, a escrita  chega a ser até muito bem humorada.

 

 


terça-feira, 27 de fevereiro de 2024

C O N V E R S A D E J A R D I N E I R O S - Jardim Funcional

 

Virou moda falar de jardins funcionais. Revistas de casa, decoração e paisagismo, assim como as mostras anuais de profissionais e produtores das áreas têm intensificado a utilização desse termo. Creio, no entanto, que, desde os mais remotos tempos, jardins têm sido espaços que cumprem múltiplas e variadas funções, indo muito além de suas propriedades puramente decorativas. Há os casos daqueles que instalam jardins em residências e outros espaços públicos ou privados com o objetivo apenas de valorização do imóvel ou do serviço ali prestado. Da mesma forma, existem  os que desejam um jardim como espaço de meditação e busca de harmonia interior, bem como outros que apreciam beija flores e outros pássaros e requerem dos profissionais  do paisagismo a inclusão de espécies florais que sejam mais atraentes para esses bichinhos.


Limoeiro também usado como
suporte de orquídeas


Composição interessante de jabuticabeira
e bromélias enfeita a área da piscina
Foto: Dayze Magalhães

Há registros que indicam que por volta dos anos 300 a. C., o filósofo grego Epicuro exaltava o bem viver e a felicidade que podem surgir da convivência com os jardins. Ele referia-se ao Jardim das Delícias e dos prazeres e criou uma escola de pensamento, o Epicurismo, que divulgava suas ideias, compartilhadas por muitos discípulos.

Parece claro que os jardins, enquanto espaços planejados, podem e devem ser vistos não apenas como espaços com funções estéticas e decorativas. A depender do desejo e das possibilidades dos seus usuários, o paisagismo  pode atender a diversas funções, sendo as mais mencionadas:

- para a valorização e embelezamento de imóveis;

            - como espaço de meditação e busca de paz interior;

            - com  função estética, ou seja  priorizando-se a promoção da beleza e harmonia do local;

            - com o objetivo de preservação e cuidados com a fauna e a flora, atrair pássaros, borboletas e outros pequenos animais;

            - e, como mencionado, os ditos  Jardins funcionais, quando às espécies ornamentais, associam-se plantas que possuem outras características.

         Juntamente com espécies frutíferas, ervas aromáticas, chás e temperos, bem como verduras e legumes, as plantas ornamentais podem e devem ser harmonizadas de forma que o jardim se torne um espaço multifuncional sem perder de vista a experiência estética.          

Esse último movimento, o de incluir espécies utilitárias nos jardins, tem sido impulsionado pelo desejo, cada vez mais frequente, de melhorar a oportunidade de consumir alimentos mais saudáveis, livres de agrotóxicos e excesso de fertilizantes.

        Frutíferas de porte menor e  de fácil produção em climas tropicais e temperados tem sido vistas com mais frequências em belos jardins. Apenas como exemplos de arbustos, citam-se  romãs, acerolas, carambolas e jabuticabas, entre outras tantas que, a depender do arranjo e  da  distribuição nos canteiros, cumprem o papel de utilitárias e decorativas com o mesmo vigor. Maracujá, uva e kiwi, entre outras, trepadeiras ficam muito bonitas cobrindo pergolados ou mesmo como coberturas para cercas e muros.

Carambola: um luxo no jardim
Acerola enfeita, alimenta e 
pode proteger espécies de sombra




Pérgola coberta por parreira de uva confere proteção
a kokedamas de plantas pequenas e orquídeas
Foto: Solange do Carmo

Entre as espécies menores, são bonitos os tomateiros, várias tipos de pimentas e pimentões da mesma forma que as berinjelas (por seus lindos frutos) e as beterrabas (por sua folhagem exuberante). Essas e outras plantas de hortas podem cumprir o papel ornamental adicionando cores e texturas inesperadas em jardins e canteiros. Também a cúrcuma (ou açafrão da terra) assim como o gengibre, além de muito saudáveis para serem incluídos nas dietas alimentares, produzem flores interessantes e compõem bem com alpíneas, helicônias e especialmente com a cúrcuma ornamental, uma variedade que tem estado na moda entre paisagistas e decoradores. Morangos, por sua vez, além de poderem compor canteiros,  costumam ser usados lindamente como forração em vasos maiores.

Cidreira ou capim limão em
harmonia com bromélias

Das espécies consideradas aromáticas, ou folhas de chá, também surgem combinações interessantes em jardins multifuncionais. A camomila e a artemísia, por exemplo, com pequenas flores brancas e amarelas enfeitam e alegram  canteiros; da mesma forma, a alfavaca e o manjericão, ambos com folhagens exuberantes quando bem cuidadas, além de enfeitar perfumam espaços onde são inseridos e podem atrair insetos importantes como abelhas e joaninhas.

Cultivar, mesmo que pequena parte de sua própria comida, não se resume a ter uma vida mais saudável, mas também em contribuir para a preservação do meio ambiente. Quando essa prática puder ser associada com o gosto que a maioria das pessoas possuem por jardins, certamente tornará as atividades de cuidado e manutenção necessárias muito mais prazerosas. Enfim,  jardim, pomar e horta não são áreas excludentes, ao contrário, casam-se muito bem, observados os princípios que conferem harmonia e beleza aos espaços, transformando-os em verdadeiros “jardins de delícias e prazeres”, como se referia o antigo filósofo.

Lindo vaso de pimenta do reino