quarta-feira, 4 de março de 2026

Publicado em seu livro Bagagem de 1976,  Bilhete em papel rosa, dedicado pela autora ao seu "amado secreto Castro Alves", faz,  neste ano, meio século de existência. Sendo essa obra de Adélia Prado uma das minhas preferidas, trancrevo a poesia aqui no blog propondo uma reflexão sobre o valor de uma obra de arte. 
Quando pensamos em um quadro, uma escultura e outros objetos tangíveis, há um mercado de artes que costuma atribuir valor a tais criações, chegando algumas a ter preço inestimável, tal a relevância do artista no contexto da história da arte e o significado atribuido à peça, constituindo esse assunto quase que um mistério para os comuns dos mortais.
Isso me leva a pensar: quanto vale um poema e a sensação que ele é capaz de provocar em milhares, talvez milhões de pessoas que, mediante a leitura encontram encantamento, beleza e transcedência nesse arranjo de palavras quase milagroso?
Recentemente publiquei um livro de poesias e um amigo escreveu-me dizendo que  meus textos fizeram-no lembrar de Adélia Prado.
Nem preciso dizer que fiquei metida. Principalmente porque esse amigo é um escritor e dramaturgo respeitado. 
Então para que outras pessoas possam usufruir dessa beleza, compartilho aqui o 


Bilhete em Papel Rosa

Quantas loucuras fiz por teu amor, Antônio.
Vê estas olheiras dramáticas,
este poema roubado:
“o cinamomo floresce
em frente ao teu postigo.
Cada flor murcha que desce,
morro de sonhar contigo”.

Ó bardo, eu estou tão fraca
e teu cabelo é tão  negro,
eu vivo tão perturbada, 
pensando com tanta força
meu pensamento de amor,
que já nem sinto mais fome,
o sono fugiu de mim. 

Me dão mingaus,
caldos quentes, me dão prudentes conselhos,
eu quero é a ponta sedosa do teu bigode atrevido,
a tua boca de brasa, Antônio, as nossas vidas ligadas.
Antônio lindo, meu bem,
ó meu amor adorado,
Antônio, Antônio.
Para sempre tua.

(Publicado originalmente em 1976, no livro Bagagem)



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