É dia do trabalho e,
infelizmente, não temos razão para comemorar. O trabalho, como sabemos, é uma
dimensão importante em nossa vida. Não serve apenas para prover a sobrevivência
dos que dele vivem, mas é fonte de realização pessoal, representa oportunidade
de crescimento e aprendizagem e permite enriquecer as interações sociais, além
de outras possibilidades.
Aqueles que possuem
um mínimo de compreensão a respeito do que está ocorrendo atualmente no Brasil
conseguem enxergar o que está em jogo. Retrocessos em conquistas e direitos
sociais do povo em geral e propostas de cortes nos direitos dos trabalhadores.
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Se continuar assim, daqui a pouco podemos rasgar a carteira de trabalho |
Como vimos no espetáculo
grotesco do último dia 17, na tribuna da Câmara Federal, nosso parlamento é
essencialmente patronal. Em sua maioria é composto por representantes de feudos
e oligarquias, constituídos e mantidos ao longo dos anos. Com raras exceções, os
poucos trabalhadores que fazem parte dessa casa legislativa, se deixam “engolir”
pelas manobras ardilosas dos representantes dos endinheirados.
Somente para
exemplificar o que vem por ai, relaciono a seguir alguns Projetos de Lei (PL)
em tramitação que são motivos para que nós trabalhadores estejamos indignados e
sem razões para comemorar.
Comecemos pelo PL
948/2011, que determina que, após homologação da rescisão, ficariam os
empregados demitidos impedidos de recorrerem à justiça. Ora, se enquanto
trabalha e vige seu contrato, o empregado não pode reclamar eventuais descumprimentos
da lei, sob o risco de ser demitido, como ficar impedido de fazê-lo após a
demissão?
Tramita também no
Congresso Nacional o PL 4330/2004 que estende a possibilidade de terceirização
a todas as atividades das organizações. Terceirização, como se sabe, não é
apenas sinônimo de precarização do trabalho. No caso do serviço público, constitui-se
em mecanismo utilizado para burlar a lei de acesso democrático aos órgãos e
instituições dos governos, (permitindo, por intermédio de empresas contratadas
para a prestação de serviços), para o apadrinhamento, o compadrio e a consolidação
ainda maior do patrimonialismo.
Discute-se também o PL 4193/2012, que propõe que acordos
ajustados entre empregados e patrões prevaleceriam sobre a lei. Num país de
herança escravocrata como o nosso, com pouco fortalecimento das classes
trabalhadoras e tantos sindicatos com
reputação questionável pela conduta de dirigentes mal intencionados, nem merece
muitos comentários a crueldade de tal proposição.
Visando também enfraquecer
direitos dos trabalhadores, paralelamente, tramitam o PL 1875/2015, que propõe
facilitar a suspensão dos contratos de trabalho, e o PL 5019/2009, que propõe a redução de jornadas com
redução salarial, sem justificativa econômico-financeira e sem incluir gerente e
diretores no “pacote” .
Parece inacreditável, mas há inclusive, o PL 3842/2012 que propõe
afrouxamento no conceito de trabalho escravo. É muito triste, chocante mesmo,
observar as tentativas de retroceder em conquistas tão duramente alcançadas com
lutas de trabalhadores em todo o mundo, alguns dando a própria vida para
defender condições mais dignas de trabalho.
Como observam, a lista é grande. Há ainda o PL 3785/2012, que propõe
acabar com o descanso semanal remunerado e folgas, inclusive intervalos para
almoço. Há empresários descaradamente dando entrevistas onde justificam que
quinze minutos seriam suficientes para a refeição e que se pode comer com uma
mão e operar máquinas com a outra. Ao ouvir esse absurdo não tem como não
lembrar o clássico “Tempos Modernos” de Charles Chaplin, com sua maluca máquina
alimentadora.
Pensam que acabou? Pois tem mais: há o PLS
710/2011 que proíbiria os servidores públicos de fazerem greve. Tomemos como
exemplo o caso dos professores da rede
pública de ensino, historicamente desrespeitados em seus direitos mínimos de
receber salários dignos e condições de trabalho idem. Os governos dos estados
de São Paulo e do Paraná, entre os mais ricos do país, deram recentemente
demonstrações ostensivas do desrespeito a tal categoria de trabalhadores,
tratando-os com repressão policial à base de jatos d’água, cassetetes e outras
truculências. Pensávamos que era o “fim do mundo” em desrespeito aos
profissionais do ensino, mas, como vemos, ainda pode piorar.
Há ainda projetos de lei que propõem
revogar a multa rescisória sobre os depósitos do FGTS, em caso de rescisões
injustificadas e alteração em Norma Regulamentadora que estabelece a
obrigatoriedade de dispositivos básicos de segurança do trabalho, entre outros.
É preciso que fique
claro: a grande instituição patrocinadora da maioria dessas mudanças é a
poderosa FIESP, Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, a mesma que
apoia e financia o golpe contra a democracia no Brasil. Portanto, hoje, quando
vivemos esse momento tão dramático de nossa história, devemos estar atentos,
preparados para lutar e mostrar nossa indignação contra todos esses absurdos,
mas “sem perder a esperança jamais”.
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