Cecília Meireles, sempre oportuna, mais atual do que nunca.
TRÊS
Eu vi as altas montanhas
Ficarem planas
E o mar não ter movimento
E as cidades irem sendo
Teias de aranha.
Por mais que houvesse, dos homens,
Gritos de amor ou de fome,
Não se escutava
Nem a expressão nem o grito
- Que tudo fica perdido
Quando se passa.
Eu vi meus sonhos antigos
Não terem nenhum sentido,
E recordava
Tantas emoções de cativos
Estendendo em seus jazigos
Duras garras.
Rios de pranto e de sangue
Que pareceram tão grandes,
Onde é que estavam?
A asa que longe se move,
Desprende-se quando sobe,
Da humana larva.
(In: Cecília Meireles. Antologia Poética. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001.)
Bem vindo à minha casa virtual. Aqui você encontra conversas sobre jardinagem, literatura, artes e artesanato, fatos do cotidiano e um pouco de administração e gestão de pessoas. Sinta-se convidado a participar delas. Como dizemos em Minas: "Caba de chegar que a casa é sua. É sempre bom trocar um dedinho de prosa".
quarta-feira, 24 de janeiro de 2018
sábado, 30 de dezembro de 2017
Balanços Inevitáveis
Chega o final de dezembro e, quando nos damos conta, já estamos refletindo sobre como foram os meses passados e fazendo planos para o ano novo. Mesmo sabendo que, como disse o poeta, "não sou quem me navego, quem me navega é o mar".
2017 provavelmente vai ficar na história como um "ano perdido": retrocessos nos direitos dos trabalhadores, desgoverno, corrupção quase generalizada entre os políticos, entrega de patrimônio dos brasileiros a empresas multinacionais, descaso com a educação, com a saúde e com outros deveres do estado, compra de votos e de apoios parlamentares à luz do dia, entre outras aberrações.
As perspectivas para o ano vindouro não são muito animadoras. Ano eleitoral geralmente é um tempo de renovar as esperanças, me desculpem o termo chulo, mas parece que brasileiro não se cansa de fazer m..... Candidato de extrema direita desponta entre os favoritos. Ocupando cargo público há mais de 25 anos, apresenta-se como o "salvador da pátria", aquele que vai mudar o sistema, mesmo fazendo parte dele há tanto tempo. O sujeito é truculento, intolerante, preconceituoso, além de ser defensor da pena de morte e da redução da menoridade penal, do uso indiscriminado de armas de fogo e de uma série de outras barbaridades. E há quem acredita em um crápula desses e defenda que ele vai melhorar o país. Sinceramente não sei se isso é ingenuidade; mais me parece ser ignorância e incapacidade de compreender a dificuldade em encontrar alternativas para convivência civilizada, diante da complexidade dos problemas atuais.
Apesar de tudo vemos alguns mínimos avanços. A democratização da informação e o aumento na possibilidade de escolhas de meios de comunicação é o mais notável.
E porque estamos renitentemente tentando ser alegres e esperançosos, lembramos que também neste ano que se finda, sabiás chocaram em nosso jardim. Fizemos arte, cuidamos das flores, conhecemos novas trilhas e cachoeiras, continuamos tentando aprender a dançar, estivemos juntas com a família e amigos e, cada vez mais, sintonizadas com a natureza.
| Como são difíceis de de fotografar, os danadinhos |
| Desprezaram a casinha e fizeram o ninho no vaso |
Feliz ano novo a todos, especialmente aos leitores desse meu singelo bloginho.
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| Cachoeira da fumaça em Carrancas-MG. |
quarta-feira, 20 de dezembro de 2017
JUNTOS SOMOS MELHORES
Acabo de receber os pacotes com minhas criazinhas desse ano: dois livrinhos infantis. Demorou, mas é bom que tenham chegado nessa época tão bonita e tão boa para presentear. Escrever faz parte de meus sonhos e da minha trajetória. Escrever para crianças insere-se dentro de um propósito de levar a vida brincando, com mais leveza e pouca censura.
Ficaram bonitos, não tenho como negar. Todavia devo reconhecer que o resultado final é também devido ao talento da ilustradora, à criatividade do responsável pelo projeto gráfico e tem muita contribuição dos editores e revisores. Nunca é demais lembrar que "nenhum de nós é tão bom, quanto todos nós juntos".
Estou gostando dessa brincadeira e já ensaiando novas rodadas. O aprendizado apenas começou. Há uma mente inquieta fervilhando de ideias e projetos já bem delineados. Espero ter disposição, porque ficar parada não é do meu feitio. Sou movida a curiosidade, ousadia e paixão pela arte de maneira geral e especialmente pela literatura.
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| Adicionar legenda |
domingo, 19 de novembro de 2017
CONVERSAS DE JARDINEIROS - Um Jardim Bem Natural
| Casa em estilo rústico auxilia na obtenção de jardim com aspecto natural |
| Bancos de madeira de demolição e pedras próximos a arbusto florido |
Os jardins mais bonitos que conheço, geralmente não se prendem demasiadamente às regras rígidas e técnicas de
paisagismo, deixando que a natureza seja a grande fonte inspiradora para a sua
criação e manutenção.
| Antigo coxo de curral usado como jardineira |
| Tapoerabas nativas nas touceiras de hortênsias |
É um encantamento olhar para um jardim ou
canteiro e ser levado a acreditar que ele não foi planejado, mas brotou fluentemente no lugar e já nasceu bonito. O que raramente é verdadeiro. Jardins plenos de
beleza necessitam de planejamento, um tempo para adaptação das plantas, e a integração das
espécies ao local, especialmente às suas condições naturais.
| Antúrios integrados à mata no caminho de chegada |
Há aspectos importantes a serem considerados, no caso de se desejar um jardim bonito e harmonioso, especialmente quando se pretende maior liberdade para o gosto pessoal dos proprietários se expressar livremente e permitir brotações espontâneas.
O
tamanho do espaço disponível para o jardim, a topografia, os níveis de umidade
e de insolação do terreno e os elementos naturais já existentes no local são, entre outros, fatores a serem considerados, além das
regras de paisagismo. Estas, no geral, prendem-se bastante aos quesitos, cor,
textura e altura das plantas, e a modismos. Isso mesmo. Tirando as chamadas
“pretinhas básicas”, como os sagus e as palmeiras, por exemplo, plantas entram
e saem da moda e paisagistas, em muitos casos, talvez pressionados, ou
impressionados pelo marketing dos viveiristas e das revistas de decoração, se
rendem às plantas da vez.
| Rabos de tatu crescem espontaneamente no canteiro de bromélias |
A ideia aqui é mostrar, como um jardim
criado e mantido sem muitas regras, pautado predominantemente no gosto pessoal
dos proprietários e nas condições do terreno, pode tornar-se um espaço de
sonhos, dignos de admiração e encantamento.
| Antigo carrinho de mão utilizado como jardineira, enfeita o tronco de palmeira imperial |
Nesse exemplo, palmeiras e bromélias foram os carros chefes
das plantas utilizadas, havendo uma forte presença de sagus, árvores e arbustos
floridos. Houve pouca intervenção na topografia acidentada do local. A
existência de uma pequena cachoeira e um antigo lago deram o tom de
naturalidade e casualidade perceptíveis no jardim. A casa e o mobiliário
externo em estilo rústico foram também decisivos para a obtenção do resultado
repleto de beleza e harmonia.
| Ripsális em vasos formam cortina natural na varanda |
É difícil imaginar que este local estava
desprezado, degradado e entregue a pragas e carrapatos há alguns anos, quando
foi adquirido pelo casal; ele engenheiro, ela artista plástica, ambos cheios de
bom gosto, amor à natureza e desejo de preservar uma nascente e uma matinha
nativa, que estavam em vias de desaparecer, e fazer dali seu local de descanso
e contemplação.
A dedicação permanente a a persistência dos proprietários, além do amor ao local, foram e tem sido decisivos para a obtenção desse resultado deslumbrante. Que não se enganem os adeptos de soluções fáceis e prontas: construir e manter um local como esse exige, além de muito amor, trabalho duro e persistente.
| Moinho d´água construído ao lado da cachoeirinha integra o jardim |
segunda-feira, 30 de outubro de 2017
Tão Rico, Tão Pobre
Estou expondo meus estandartes na Casa de Cultura de Paula
Cândido, como parte da programação da festa de Nossa Senhora do Rosário, evento
que se repete há mais de um século. Já participei de exposições em outros
locais e cidades, todas muito bacanas, que me encheram de alegria pela
oportunidade de mostrar minhas artes e interagir com os visitantes. Todavia
nenhuma delas esteve em um contexto tão apropriado como essa que vem ocorrendo
agora.
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| Estandarte que compus especialmente para a Exposição |
Estandartes são bandeiras ou flâmulas
que abrem desfiles militares, religiosos, ou de festividades pagãs, como o
carnaval, por exemplo. Representam tropas, grupos, nações, tribos, embarcações,
ou blocos e geralmente são compostos em tecidos com as cores das respectivas
agremiações. Na sua composição, na maior parte das vezes, utilizam-se rendas, fitas, bordados, sianinhas,
galões, pedrarias e outros adereços que contribuam para dar cor, harmonia e
beleza às peças que possuem um papel importante nos desfiles e cortejos. Estandartes,
no Brasil, ganharam status de obras de arte, com Arthur Bispo do Rosário,
artista brasileiro, cujas obras já estiveram presentes em bienais e exposições
em diversos países.
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| Congada em frente à igreja do Rosário-Foto: Thaynã Paes |
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| Todo o vigor da festa. Foto Thaynã Paes |
As Congadas são tradicionais manifestações
da cultura popular e têm forte influência de danças, músicas e costumes
africanos, que, num processo de sincretismo religioso, incorporaram-se às
comemorações católicas. Atualmente, assim como ocorre em Paula Cândido, em
várias outras localidades, as festas do Rosário praticamente não existem sem as
Congadas. Estas, por sua vez, não existem sem os estandartes.
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| Mestre Zezinho: elegância, vigor, alegria |
Quando assisto manifestações populares importantes
como essa, não consigo deixar de pensar em como a cultura africana é forte,
pois, apesar de historicamente vir sofrendo contínuas tentativas de massacre, tem
sobrevivido com todo o vigor. E isso não se dá apenas com as Congadas. Quando
vamos a Salvador (BA), Ouro Preto (MG), ou Olinda (PE), por exemplo, deparamos permanentemente,
com manifestações da cultura afro, seja por intermédio da música, dança,
folclore, culinária e outras expressões.
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| Toda prosa no meio dos mestres-Foto Thaynã Paes |
No meio a toda essa riqueza cultural,
não posso também deixar de observar o quanto grande parte de nosso povo
continua pobre no sentido literal da palavra, não usufruindo de condições mínimas
para ter uma vida digna. Penso muito nisso quando vejo pessoas sem dentes, ou
com prótese dentária total, ou caminhando pelas ruas em dias chuvosos com os
pés desprotegidos (calçando chinelos de dedos), por exemplo. Essas são
manifestações evidentes de falta de acesso a condições mínimas de uma vida
decente.
Tudo isso me comove muito e me espanto
de perceber o quanto são insensíveis os políticos e demais pessoas detentoras
de poder, nesse nosso país tão lindo, tão rico de recursos materiais e de
tradições culturais e, ao mesmo tempo, tão pobre de oportunidades ao povo. Grande
parte dele não usufrui sequer da possibilidade de ter uma vida com um mínimo de
dignidade e conforto material. Ainda assim, continua alegre, festeiro e animado
e nos brinda constantemente com manifestações encantadoras como a festa do Rosário e o Congado de Paula
Cândido, dos quais, este ano, estou tendo a honra de fazer parte.
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| Com a equipe da Secretaria de Cultura |
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| Recebendo visitantes na exposição-Foto Thaynã Paes |
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