quarta-feira, 31 de maio de 2017

RUMO AO SUL

Viajar é sempre bom. O que não faltam são opções de bons roteiros. 
Dizer que valeu a pena, é pouco para sintetizar a façanha que empreendemos rumo ao Sul, por mais de 7.100 km, em uma viagem bem planejada, que durou vinte e dois dias e resultou  em muita diversão e aprendizado.
O roteiro prévio estabelecia Campos do Jordão-SP, como primeiro destino, seguindo por Foz do Iguaçu-Pr e Serra Gaúcha, com Gramado e Canela, antes de rumar para o Chuí e alcançar o Uruguai. Punta del Este, Montevidéu e Colônia do Sacramento, nesse país e Buenos Aires, na Argentina, constavam do trajeto. A volta seria feita pelo litoral, depois de passar pela Serra do Rio do Rastro em Santa Catarina. O plano incluía Balneário Camboriú-SC, ficando em aberto uma cidade do litoral de São Paulo, onde seria feita a última parada antes do retorno. Como todo bom planejamento, o nosso também possuía alguma flexibilidade, o que resultou em pequenas mudanças no percurso de retorno.
Como mencionei anteriormente, fizemos uma primeira parada, porém sem pernoite, em Aparecida-SP. Há tempos cogitava ir ao santuário e visita-lo foi a abertura com chave de ouro, para essa aventura entre amigos.
A Catedral e Santuário de Nossa Senhora Aparecida é o maior templo religioso católico do Brasil e atrai milhões de visitantes, especialmente nos meses de agosto, setembro e outubro, quando é comemorado o dia da padroeira do país.
Além de ampla e com um significado tão importante para a maior parte de nosso povo, a catedral é muito bonita. O altar principal com a imagem da Santa e os mosaicos retratando paisagens brasileiras, recebendo iluminação natural que passa pelos cobogós incrustados nas paredes altas, acendem no visitante um justificável deslumbramento.
Impressiona a estrutura do santuário que possui cerca de 72 mil metros quadrados, com praça de alimentação, lojas e mais de mil banheiros. Para manter o complexo são contratados cerca de 1.800  funcionários, além de mais de 800 voluntários.
Apesar de ter sido uma visita rápida, essa primeira parada em Aparecida representou o começo de uma trajetória abençoada e feliz que cumprimos num período de vinte e três dias e cerca de 7.200 km percorridos.
Santuário de Aparecida
De Aparecida seguimos para Campos do Jordão, onde hospedamos no bairro mais charmoso da cidade, a Vila Capivari.
Incrustada na Serra da Mantiqueira, a cidade é o mais elevado município brasileiro, ficando em uma altitude de 1.628 metros. Com sua arquitetura no estilo de cidades europeias e baixas temperaturas, a cidade é um dos destinos turísticos mais procurados do país.
Plátanos em Campos do Jordão
Com muitos restaurantes charmosos e parques com belas paisagens, Campos do Jordão possui uma rede hoteleira ampla e uma infraestrutura turística capaz de tornar muito agradável a permanência por lá. Mesmo ainda fora do inverno oficial, o frio na cidade é realmente intenso. Um tour pela cidade é capaz de encantar pela beleza da arquitetura e da vegetação, com predomínio de árvores de plátanos com sua folhagem variando do verde ao vermelho alaranjado.
Ao mesmo tempo, é capaz de chocar pelas enormes diferenças socioeconômicas e injusta distribuição de renda encontradas nesse nosso sofrido país. A truta servida nos restaurantes é digna de registro, assim como a cachaça com gengibre e os doces locais. O parque do Amantikir e o museu da Xilogravura são locais interessantes de serem visitados.
De Campos do Jordão seguimos com destino a Foz do Iguaçu até as proximidades de Londrina, no Paraná, onde paramos para pernoite na cidade de Cornélio Procópio. Atravessamos o estado passando por Maringá e Cascavel, entre outras cidades. As diferenças regionais de topografia, vegetação e cultura, especialmente a linguagem, começam a ficar acentuadas.
Duas coisas impressionaram bastante nessa travessia: a primeira é a quantidade exacerbada de pedágios com preços elevados, fazendo do Paraná o estado campeão nesse quesito; a segunda é a predominância da monocultura do milho, tomando a quase totalidade das terras visíveis pela estrada. Deixa-se a impressão que praticamente desapareceram as araucárias, árvores nativas do Paraná, podendo-se contar nos dedos o número das que são avistadas pelo caminho.
Cataratas do Iguaçu...
Foz do Iguaçu situa-se na fronteira do Brasil com a Argentina e o Paraguai.  É uma cidade de médio porte com mais de 250 mil habitantes e que possui uma boa infraestrutura turística. É um dos destinos mais procurados do país, por visitantes estrangeiros e nativos, provavelmente por abrigar o Parque Nacional do Iguaçu, com suas cachoeiras e quedas d´água espetaculares. Iguaçu é uma palavra de origem indígena que significa água grande. Sem dúvida é isso que vemos por lá. É impressionante, até para os que não visitam o local pela primeira vez, como é o meu caso. Visitando o parque compreendemos porque esse é avaliado como um dos lugares mais bonitos do Brasil e as cataratas do Iguaçu são consideradas uma das sete maravilhas da Natureza.
....Beleza extraordinária
Em Foz está situada    a  Hidrelétrica de Itaipu, a segunda maior do mundo em tamanho e a primeira em geração de energia. Visitas à usina também são atrações turísticas do local, assim como o passeio à Puerto Iguazú, na Argentina e a Ciudad del Este, no Paraguai, esses dois últimos especialmente para os que apreciam fazer compras ou arriscar a sorte nos cassinos, respectivamente.
A cidade de Foz do Iguaçu abriga a maior colônia árabe do país. Visitar a mesquita é programa recomendado, assim como apreciar a culinária árabe. Gostamos especialmente do doce de nome Chaibiet, uma massa folhada recheada com um delicioso creme.
Com um passeio ao belíssimo mosteiro budista da cidade, renovamos nossas energias para seguir viagem rumo à Serra Gaúcha.

No trajeto paramos para pernoite em uma cidadezinha chamada Ronda Alta. Nessa região, ouvimos, pela primeira vez a expressão “refeição a la minuta” e observamos o sotaque peculiar, perceptível até nas placas das estradas. Demoramos a entender que placas com a expressão “Tachões no Eixo” indicam tartarugas refletivas na linha central da pista.
Seguimos rumo à Serra Gaúcha, passando por Passo Fundo e Bento Gonçalves, chegando a Gramado.
Lago Negro em Gramado
Ao lado de Canela, a cidade de Gramado, que possui pouco mais de 30.000 habitantes, recebe milhões de visitantes durante o ano. E não é por menos.  Com a arquitetura, costumes e culinária com   forte influência alemã e italiana, a cidade sedia o maior festival de cinema do país e registra temperaturas bastante baixas, nessa época do ano. O comércio é muito bom, com grande concentração de lojas elegantes, além de restaurantes e chocolatarias que dão um charme extra ao local. Visitar o Lago Negro e o Museu do Cinema são bons programas, além de bater pernas pela cidade, comer bem e relaxar.
Hospedando-se em Gramado fica fácil visitar as cidades do entorno que também possuem atrações interessantes. Canela fica a apenas oito km de distância e igualmente possui um comércio interessante, com destaque para produtos feitos de couro e malharias. Visitar as vinícolas e fazendas que conservam tradições antigas especialmente na culinária, faz parte dos programas turísticos recomendados para a região.
Em próxima postagem continuarei relatando essa viagem que apenas começou. Até breve.
Amigos em frente à catedral de
Pedra em Canela-RS

sexta-feira, 26 de maio de 2017

SOBRE A GRATIDÃO E A AMIZADE

 A Deus, aos deuses, aos santos de nossa devoção, a todos os santos, ao espírito superior que rege o universo, ao equilíbrio universal, à força suprema,. Não importa qual nome se dá ou a quem a dirigimos. Gratidão é um sentimento que  faz  muito bem. Quando junta-se à amizade, forma um encontro perfeito.
Estas reminiscências são para iniciar o relato de minha mais recente viagem, provavelmente uma das mais significativas que já pude empreender. Tenho andado bastante. Talvez não tão longe, talvez não glamorosas, ainda assim, minhas andanças têm sido frequentes há bastante tempo.
Viajar ainda me parece, além da oportunidade para aprender e  renovar, um ato de coragem. Sair de nossa zona de conforto e colocar os pés na estrada exige alguma disposição para correr riscos e enfrentar o desconhecido.
Obviamente, quando vamos pela primeira vez a um lugar, por mais que nos informemos antes e, mesmo que hoje isso esteja cada vez mais fácil, estamos indo ao encontro do desconhecido. Seria mais confortável ficar na nossa vidinha de sempre, porque uma viagem, principalmente as mais longas “tiram nossa vida do eixo”. Refiro-me à  rotina. Obrigações familiares, cuidados da casa (minha horta, meu jardim...),  as aulas de ioga, as caminhadas, os bordados, as aulas de dança e a suspensão temporária de projetos em andamento. Enfim, seja o que for que se faça, é necessário dar uma parada.
Encarar costumes desconhecidos, comidas estranhas, línguas que não compreendemos plenamente, despesas extras, tudo isso pode desanimar, se não tivermos a convicção do quanto voltaremos revigorados, muito mais flexíveis, maduros e com nossa visão de mundo um pouquinho mais aclarada.
Não é meu propósito relatar, desta vez, a inesquecível viagem que acabamos de empreender. Para mim era um sonho antigo: cortar este Brasil e quiçá a América, pelo chão. Primeiramente porque não sou muito amiga de viagens aéreas. Tenho medo e evito-as, quando posso. Em segundo lugar e, talvez também influenciada pelo receio de me despencar pelos ares, porque gosto, aprecio demais os caminhos terrestres.  Amo romper distâncias pela estrada, conhecendo os acidentes geográficos,  a topografia, a vegetação, as cidades,  enfim, descobrindo realmente determinada região, o que uma viagem aérea não proporciona.
Mas..., não estava a dizer sobre gratidão e amizades? Sim, além de todos esses ganhos, gratidão e amizade podem ser fortalecidas em uma viagem feita com amigos.
Não é pouca coisa descobrir que seus amigos incluíram determinada cidade no roteiro, sem você saber, para atender um desejo seu, que mal foi expresso. Tive esta alegria ao perceber que entrávamos  no sentido à basílica de Aparecida. Ainda não disse que meus companheiros de viagem eram um casal de amigos e compadres de longa data, e outra amiga também muito querida. Claro, assim fica mais prazeroso.
Primeira parada: Santuário de Aparecida. Carinho dos amigos
Concluir um roteiro de 7 200 km, incluindo cinco estados brasileiros e quatro países por essa América, ainda tão desconhecida da maioria de nós, foi uma aventura inesquecível, que pretendo relatar aqui no blog com um pouco de detalhes, em próximas postagens.

Companheiros de viagem
Hoje quero registrar a enorme gratidão  por ter vivenciado essa experiência impar, ao lado de amigos; e ressaltar a o grande privilégio de ter saúde e disposição para empreender essas aventuras e de ter  pessoas tão especiais no meu caminho.
Daqui a pouco começo a escrever sobre os lugares que visitamos, as experiências que vivenciamos e as descobertas da viagem. Por hoje, meu propósito principal é de expressar gratidão à vida por essa oportunidade tão bacana, e registrar a grandeza de contar com amizades tão significativas.  Porque quando pode ser assim, tudo  ficar melhor. Até quando estamos no “olho do furacão”, como é o caso do momento político que estamos vivenciando no Brasil, atualmente.  Namastê!

domingo, 30 de abril de 2017

HOJE É DIA DE FALAR DE BELCHIOR O DIA INTEIRO

Logo cedo veio a notícia triste da morte de Belchior.
Brasileiro, nordestino, cantador de feira e repentista, desceu para o sudeste e derramou seu talento por este país, sem parcimônia. Suas músicas foram gravadas por Elis, Fagner e outras grandes vozes. Suas composições embalaram muitos sonhos da minha geração e continuam a traduzir sentimentos e emoções de minhas filhas e de seus amigos que gostam de poesia e de boa música.
Garimpando em solo rico, passei boas horas revendo as canções desse gigante da MPB. É uma preciosidade atrás da outra. Difícil elaborar uma seleção. Fui pinçando versos, na tentativa de obter uma amostra do que foi a farta criação de Belchior.

Não poderia deixar de começar por Mucuripe, para mim, a mais meiga de todas as suas canções, poesia singela e comovente, coisa de grandes poetas.
“Calça nova de riscado
Paletó de linho branco
Que até o mês passado
La no campo inda era flor.” (Belchior, em Mucuripe).

A beleza brotava fértil em suas letras, uma construção mais rica que a outra. Ouvindo Belchior, a gente se pega perguntando como seria feio e sem graça o mundo sem poesia.
Não me peça que lhe faça uma canção como se deve
Correta, branca, suave, muito limpa, muito leve
Sons, palavras, são navalhas e eu não posso cantar como convém
Sem querer ferir ninguém (Belchior em Apenas um rapaz latino americano).

Como todo poeta e compositor, Belchior era também um bom filósofo.  Nunca deixou de questionar a impotência humana, e permitiu que  a dor escorresse sem parcimônia em suas letras fortes.
“O que é que pode fazer o homem comum
Neste presente instante senão sangrar?
Tentar inaugurar
A vida comovida inteiramente livre e triunfante”  (Belchior, em Conheço o meu lugar).

            Suas composições são feitas de versos que nos parecem palavras espontâneas, brotando repletas de beleza em suas letras. Traduzem  o indizível, aquilo que ele chamou lindamente de “coisas sem jeito”.
Eu estou muito cansado de não poder
De não poder falar palavra
Sobre essas coisas sem jeito
Que eu trago no meu peito” (Belchior em Todo sujo de batom).


            Perito com as palavras era mestre na arte de fazer brotar versos leves, compostos com metáforas e rimas despretensiosas, que podem parecer simples, mas que não  surgiriam a não ser de um pensamento  genial.

“...Eu era alegre como um rio,
Um bicho, um bando de pardais,
Como um galo, quando havia
Quando havia galos, noites e quintais”. (Belchior em Galos, Noites e quintais).

            Quem não gostaria de ter escrito esses versos?
           
“Quero gozar no seu céu, pode ser no seu inferno.
Viver a divina comédia humana onde nada é eterno”. (Belchior em Divina Comédia Humana).

            As relações humanas, as interações familiares e seus difíceis consensos, seus inevitáveis conflitos, palpitavam em suas composições que tocam na gente de maneira singular.
“No centro da sala, diante da mesa
No fundo do prato comida e tristeza
A gente se olha, se toca e se cala
E se desentende no instante em que fala” (Belchior, em Hora do Almoço).

            E o seu grande desejo, qual era? A julgar pelos versos a seguir, não muito diferente do sonho de todos as pessoas de bem.
Amar e mudar as coisas,
Amar e mudar as coisas me interessa mais”
(Belchior em Alucinação).

            Nos últimos anos o compositor fez aquilo que já ocorreu a muitos de nós: sumir do mapa, desaparecer sem deixar rastros. Provavelmente não terá sido uma decisão fácil, pouco sofrida. Aliás, em uma de suas composições ele já deixava o recado:
“Se você vier me perguntar por onde andei
No tempo em que você sonhava
De olhos abertos lhe direi
Amigo eu me desesperava” (Belchior em A Palo Seco).

Essa pequena amostra do repertório vasto e rico do compositor, pode ter resultado em um tosco mosaico, elaborado com remendos grosseiros e despropositais. Quis fazê-lo na esperança de despertar, nos mais jovens principalmente, o interesse em conhecer a obra de Belchior. Espero que pessoas mais hábeis tenham feito uma reverência mais digna ao grande compositor.

domingo, 16 de abril de 2017

Gente que não se Cansa de Minas Gerais

A gente não se cansa de conhecer e de se encantar com Minas Gerais. É bom viver andando por essas terras, a descobrir seus tesouros que não são poucos. Uma curta passeadinha bem por perto de Belo Horizonte, foi suficiente para encontrar joias da arquitetura colonial e barroca, e, mais uma vez, paisagens fascinantes. Uma passagem rápida por Sabará e pela Serra da Piedade, em Caeté, foram suficientes para restabelecer os ânimos, que, por razões que não cabem serem ditas aqui, andam meio arrefecidos.
Sabará possui  um centro histórico importante, destacando-se a mais mimosa joia do barroco mineiro.
Igrejinha de Nossa Senhora do Ó
Trata-se da Igrejinha de Nossa Senhora do Ó, construída por volta de 1720, com uma estrutura pequena e simples, porém com um magnífico interior. A edificação é considerada um dos mais preciosos monumentos do barroco brasileiro. Seu rico e detalhado interior em estilo nacional português, contrasta fortemente com a fachada simples, surpreendendo e encantando seus visitantes.
Interior da Igreja de N. Sra do O  (Foto Wikipédia)













Andar pelas Minas Gerais é também deparar-se com a oportunidade de descobrir jardins naturais de beleza incomparável. 

Desenhos, fungos e flores nas rochas
A bonita vegetação  e a deslumbrante  topografia da Serra da Piedade não permitem que quem ande por lá permaneça indiferente. Não por acaso o lugar inspirou  Adélia Prado a escrever em seu poema Ex votos “A Serra da Piedade me transtorna”. 
Vegetação nativa do cerrado
Além de toda a beleza natural da região, há, no topo da serra, um bonito santuário em homenagem a Nossa Senhora da Piedade, composto por diversas edificações, destacando-se a igreja antiga e a moderna. Toda a subida da serra é feita em estrada pavimentada em meio a vegetação nativa preservada, com predominância de espécies do cerrado. A vista é deslumbrante; em grande parte do tempo estamos literalmente entre nuvens.


É sempre bom descobrir que os encantos de Minas vão muito além de Ouro Preto, Tiradentes, Diamantina e as atrações da capital, Belo Horizonte. Por aqui, cada esticadinha é motivo  para se apaixonar sempre mais. E querer voltar sempre.
Entre nuvens
Jardins nas rochas

sexta-feira, 31 de março de 2017

Temas Recorrentes

Neste 31 de março, data tão significativa para o povo brasileiro, que nos lembra que há 53 anos o país foi vítima de um golpe militar, saímos, mais uma vez às ruas para lutar e manifestar a favor de nossos direitos e contra o golpe dado contra a democracia no Brasil há alguns meses. 
Hoje o ato foi em defesa da previdência pública e da CLT - Consolidação das Leis do Trabalho. Banqueiros e grupos financeiros poderosos têm interesse em reduzir a providência pública ao mínimo e até acabar com ela, pois assim lhes sobram mercados para vender seus planos de previdência particular. Da mesma forma,  grandes grupos empresariais, alguns até multinacionais, fazem loby pelo sucateamento da educação gratuita, pela redução no número de vagas nas escolas públicas, de olho no amplo  mercado que teriam  à sua disposição para ofertarem cursos de qualidade duvidosa e à custa da exploração do trabalho de professores e demais profissionais do ensino. 
Previdência e edução, ambas vêm sendo ameaçadas por um  governo golpista e sua base aliada comprometida apenas em defender os privilégios dos poderosos e quiçá de nações estrangeiras interessadas nas nossas riquezas. 
É o caso, por exemplo da PETROBRÁS e do Aquífero Guarani, uma das maiores reservas de água potável do mundo, vistos com cobiça  por países poderosos economicamente e que jogam o jogo sujo da exploração das nações subdesenvolvidas, como é o nosso caso. 
Por isso, fomos pra rua hoje e iremos outras vezes, enquanto for necessário, em defesa dos nossos direitos e em luta por um país mais justo e mais humano. Por mais educação pública e de qualidade, por melhor distribuição de renda, por respeito aos direitos trabalhistas e à sua ampliação, pelo respeito à mulheres e à diversidade de gêneros, por proteção às crianças e aos idosos, enfim a pauta de reivindicações é longa nesse nosso sofrido e tão carente país.
Assim retornando especificamente a questão da PETROBRÁS, reposto hoje, um texto do meu grande mestre Prof. Tancredo Almada Cruz , originalmente publicado em março de 2015, mas muito atual e, hoje, ainda mais necessário.

A Defesa da PETROBRÁS. 

 Por: Tancredo Almada Cruz *

Nos anos quarenta e cinquenta do século passado, a questão do petróleo era um dos temas que aqueciam os debates políticos no Brasil. Superada a celeuma quanto à existência ou não de petróleo no território nacional, o foco voltou-se sobre a questão de quem deveria explorá-lo.
Havia aqueles  que,  alegando  a  falta  de conhecimento técnico no País, defendiam a entrega  do  direito  de exploração desta riqueza às  multinacionais  do  petróleo (as  sete irmãs) detentoras das tecnologias mais avançadas do setor à época. Esses eram os chamados "entreguistas".  Outros defendiam a exploração por nacionais, de preferência por empresa estatal. Eram os chamados "nacionalistas". Entre os nacionalistas, encontravam-se, figuras de grande expressão nacional, como: Monteiro Lobato, General Horta Barbosa, Luís Carlos Prestes, Getúlio Vargas e o viçosense, Arthur Bernardes.
A luta foi árdua. A resistência popular, mobilizada em torno da bandeira do "PETRÓLEO É NOSSO", conquistou o monopólio estatal da cadeia produtiva da indústria petrolífera no Brasil, com a Criação do Petróleo Brasileiro S/A - PETROBRAS, em 1953.
As críticas não cessaram. Ao contrário, uma onda pessimista afirmava que a nova empresa teria vida curta e causaria grandes prejuízos à nação.  Logo a Petrobras começou a apresentar resultados positivos, desmascarando seus críticos.
No início dos anos sessenta, embora a legislação determinasse que a indústria do petróleo,  da  prospecção  ao  refino,  fosse competência da  Petrobras,  ainda  existiam  refinarias  privadas  em funcionamento no território nacional. O Presidente João Goulart, no histórico comício da Central do Brasil, em 13 de março de 1964, assinou decreto encampando estas empresas. Com o advento do golpe militar de abril daquele ano, os decretos do Presidente Jango foram revogados.
Por volta de 1970, o cenário geopolítico mundial levou à criação da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP), cartel que, em 1973, aumentou substancialmente os preços internacionais do óleo, resultando na chamada Crise do Petróleo com efeitos danosos para quase todas as economias. Naquela época, a Petrobras, que havia encontrado petróleo na bacia de Campos (litoral norte fluminense), foi alvo de novas críticas e ataques.
Argumentavam que diante da gravidade da crise internacional e da inviabilidade do País explorar, pela estatal, as jazidas do fundo do mar, elas deveriam ser entregues a empresas estrangeiras.  Os fatos demonstraram a falsidade daqueles argumentos.  Em pouco tempo a Petrobras mostrou-se, não apenas capaz de explorar aquelas riquezas, mas também, ser detentora da mais avançada tecnologia de prospecção e exploração de petróleo em águas profundas.
Os anos oitenta e noventa encerraram o século XX sob o domínio do neoliberalismo, pensamento que acreditando no "deus mercado", defendia o Estado mínimo como receita para a prosperidade mundial. As mentes colonizadas da elite dirigente nacional embarcaram nesta onda, desencadeando um processo de desmoralização do setor produtivo estatal brasileiro, visando convencer a opinião pública de que se tratavam de organizações ineficientes.  Alcançado este objetivo, o passo seguinte foi alienar o patrimônio nacional pelo que se convencionou chamar de "leilões de privatização".  Cabe frisar que, como boa parte deste patrimônio foi adquirida por empresas estrangeiras (inclusive, por estatais europeias), o que de fato ocorreu foi uma desnacionalização do setor produtivo nacional. A Petrobras, que, desde o seu nascedouro, tem sido objeto de cobiça do capital internacional, não poderia estar fora desta lista. Felizmente, escapou por pouco.
Livre da degola, a Petrobras continuou seu caminho de prosperidade, ganhando prêmios internacionais e respeito pelo mundo afora. A empresa, com repetidos recordes de produção, ajudou o País a superar a crise econômica de 2008.  Ao adotar a política de conteúdo nacional, direcionando suas encomendas para o mercado interno, permitiu que inúmeros empregos fossem criados, reduzindo a taxa de desemprego para os mais baixos níveis da história brasileira. 
Descobertas as reservas do pré-sal, a Petrobrás passou a explorá-las em curto prazo, abrindo perspectivas para avanços maiores na redução das desigualdades sociais do Brasil. Hoje, as receitas ali geradas são destinadas ao financiamento das políticas sociais do governo que transformarão o País, em futuro próximo.
Entretanto, quem acompanha o noticiário pode pensar que a maior empresa mundial de produção de petróleo, a Petrobras, está falindo, tamanha a repercussão dada aos resultados das investigações sobre atos de corrupção lá praticados. É bom que se investigue e que os culpados sejam punidos.  Contudo, causa estranheza o fato destes casos só agora serem apurados.  As denúncias indicam que a prática é antiga e que são comuns em outras instituições (como na obra da ponte Rio-Niterói; no DNER; na SUDAM; no BANESTADO; na CPTM; no metrô; etc), mas sem a repercussão que tem sido dada à Petrobras.  É possível, ou mesmo muito provável, que interesses outros sejam a verdadeira motivação para o caso.
Não é de hoje que grupos econômicos poderosos estão interessados na Petrobras - em seu rico patrimônio e, sobretudo, no acervo técnico acumulado. A Petrobras precisa ser protegida. O petróleo é nosso e, mais do que nunca, precisa continuar sendo. Afinal, são 60 anos de resistência, em defesa da soberania nacional.

* Prof. Tancredo Almada Cruz é economista e mestre em economia. Professor titular aposentado da Universidade Federal de Viçosa. Contato: censusc@yahoo.com.br