segunda-feira, 31 de outubro de 2016

DIA DO SACI (E também do Curupira, do Boitatá, da Mula Sem Cabeça e de Outros Entes Misteriosos)

Como vive a repetir uma grande amiga, dessas enraizadas até a alma com a cultura brasileira: que Halloween que nada, 31 de outubro é dia do Saci.
Não por coincidência, hoje conheci a coleção, “O Folclore do Mestre André” do escritor mineiro, Marcelo Xavier.
É uma gostosura o conjunto formado por “Mitos”, “Festas” e “Crendices e Superstições”. Esse último então, é um apanhado abrangente que, por intermédio de  enredo bem amarradinho vai desfilando, uma após outra, as crenças que prevalecem nas diversas regiões brasileiras.
Para quem tem origens rurais como é o meu caso, ou para os amantes de histórias, mitos e lendas, a coleção é, como se diz, um prato cheio.
Três livrinhos deliciosos do escritor
e artista plástico Marcelo Xavier
O conjunto dos livros tornou-se ainda mais interessante, pela forma como foi desenhado. Pelas mãos do mesmo escritor, que é também artista plástico, as páginas foram ilustradas com belos cenários construídos com figuras, objetos, paisagens e outros elementos feitos em massinha, compondo cada cena descrita de maneira muito singular, como é o folclore brasileiro.

Encantada pele descoberta, não do autor, que já conhecia, mas dessas três joias de livrinhos,  compartilho. E recomendo.

terça-feira, 25 de outubro de 2016

Parque Nacional da Serra dos Órgãos, PARNASO, Teresópolis e Nova Friburgo

Desde que a minha filha que é bióloga fez uma viagem de estudos ao Parque Nacional da Serra dos Órgãos – PARNASO, em Teresópolis, vinha planejando dar umas andadas por aqueles lados.
O Parque abrange, além de Teresópolis, outros municípios como Petrópolis,  Guapimirim e Magé. Trata-se de uma unidade conservação e proteção ambiental administrada pelo ICMBio – Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade.
O Parque é considerado um dos melhores do país para a prática de escaladas, caminhadas, rapel e trilhas. Possui uma trilha suspensa acessível até para cadeirantes. Infelizmente não pudemos desfrutar dessa, pois encontrava-se literalmente suspensa para visitação. No PARNASO a vegetação é típica da Mata Atlântica. O Parque abriga, desde árvores de grande porte, até arbustos, trepadeiras, e plantas menores, incluindo diversas espécies de grande beleza. Pegamos o final da florada do manacá da serra e avistamos  bromélias em profusão e orquídeas.
Vista da Serra dos Òrgãos a partir da trilha cartão postal
Plantas e musgos agarrados aos
troncos das árvores


No PARNASO encontram-se facilmente lindos riachos e  cachoeiras; A topografia é muito bonita, possibilitando vistas deslumbrantes. Para os que praticam escaladas, há picos com elevada altura como o Dedo de Deus e a agulha do diabo. O Parque abriga, além deste,  outros picos famosos como a Pedra do Elefante, o Morro do Escalavrado e a célebre Pedra do Sino, ponto culminante da Serra, que faz parte da travessia Petrópolis – Teresópolis. Capital nacional do montanhismo, a Serra dos órgãos recebeu esse nome em referência ao conjunto de montanhas de pedras, entre as quais se destaca o Dedo de Deus. Fazer a trilha conhecida como Cartão Postal que possibilita uma vista deslumbrante de parte da Serra dos órgãos, o pico Dedo de Deus em destaque, foi certamente o ponto máximo de nosso passeio. O trecho é todo pontuado por vegetação maravilhosa, destacando-se bromélias, orquídeas e troncos de árvores, repletos de musgos, trepadeiras, parasitas e líquens, cada um mais bonito que o outro.

Cúrcuma vermelha, raridade
da trilha da pedra do elefante
No quesito plantas, que, como já disse, é a minha paixão maior, tive uma surpresa bacana no passeio. Deparei-me com um exemplar raro (pelo menos para mim) da Cúrcuma vermelha. 
Mesmo tendo sido frustrada nossa tentativa de subir a trilha da Pedra do Elefante, por causa do mau tempo, somente por ter avistado essa espécie de grande beleza, valeu a pena a curta passagem pelo início da trilha. Sem contar que a vista da Serra dos Órgãos, a partir do mirante do soberbo, próximo à entrada principal da cidade é também deslumbrante. 
Vista da Serra dos Órgãos a partir do Mirante Soberbo
Diz-se que a melhor temporada para visitar é entre março e setembro, período de poucas chuvas e céu mais limpo. Agora em outubro pegamos um pouco de chuva, céu nublado algumas vezes, o que impediu ou dificultou a apreciação de atrativos do local. Ainda deparamos com várias atrações fechadas à visitação.
Vila austríaca
Além dos atrativos naturais, a cidade de Teresópolis guarda algum acervo arquitetônico interessante, como o edifício do antigo cassino e o palácio da imperatriz que abriga atualmente a sede da prefeitura. Interessante também é o conjunto que contém  réplica de uma vila austríaca, constituindo-se em um pequeno complexo com restaurante, pub, cervejaria, capela e lojinhas.
A cidade, por ser sede de várias confecções, especialmente em malhas, oferece a possibilidade de fazer comprinhas interessantes. Além das lojas tradicionais, há uma Feira de Artesanato famosa a Feirinha do Alto, onde é possível encontrar tapeçarias em tear, bordados, doces, compotas e roupas de malha de confecções locais. Também há peças de vestuário em viscose, algodão e renda, dizendo-se, de passagem, que muitas delas são “made in China” e que tais.
Um passeio bastante recomendado  na região é o chamado circuito Terê-Fri, que é a estrada que liga Teresópolis a Nova Friburgo, distante pouco mais de 60 km. O trajeto tem uma paisagem natural bonita e possui alguns atrativos, porém pouco sinalizados, dificultando o acesso, principalmente em dias chuvosos, como foi o nosso caso. Dentre esses, destacamos O Memorial da Colonização Suíça e a Queijaria Escola, que abriga também uma chocolateria.
Em Nova Friburgo, encontramos o Parque Estadual dos Três Picos fechado à visitação. Tentamos acessar o Pico da Caledônia, um mirante bem recomendado, que possibilita visualizar a cidade e até a região dos Lagos. No entanto nossa tentativa não foi bem sucedida. A estrade de acesso é muito inclinada, está totalmente desprovida de sinalização e com uma cratera aberta ao final, o que impediu nosso acesso ao mirante.
A região serrana do estado do Rio abrigou colonização europeia variada, destacando-se alemães, suíços e austríacos, que se instalaram no local a partir do século XIX. A culinária da região é diversificada. Em Nova Friburgo experimentamos a cozinha alemã e foi uma boa escolha.
O balanço geral é que o passeio valeu a pena, apesar do tempo chuvoso e de algumas tentativas não terem sido bem sucedidas. Para quem não conhece, recomendo.

sábado, 1 de outubro de 2016

Sobre Esperanças e Utopias

“Continuar acreditando nas pessoas e alimentar utopias é tarefa para a vida toda”. Estas lindas palavras da teóloga e escritora Solange do Carmo foram escritas a propósito das eleições municipais de amanhã. Creio que, ao proferi-las, ela pensava e se referia às pessoas que, se dizendo desiludidas com a s questões políticas, declaram que não comparecerão às urnas ou vão votar em branco ou nulo. É muito pesaroso ver cidadãos ativos, alguns até jovens com esse tipo de pensamento construído pelos detentores do poder há anos, com o objetivo de desanimar as pessoas e difundir a cultura do “não tem jeito”.  
Ledo engano comete quem assume esse tipo de postura. Sabe-se que os resultados obtidos pelas instituições são altamente influenciados pela capacidade, pela determinação e pelo caráter daqueles que se encontram à frente do comando delas. Se nos omitimos, no momento em que nos é permitido participar da escolha dos que irão decidir os destinos do município, estado ou país, estamos sendo coniventes com aqueles de caráter duvidoso que se apropriam de cargos e os exercem de maneira desonesta e prejudicial ao povo.
No caso dos municípios, como se trata da eleição de amanhã, a nossa participação é ainda mais importante, porque é aí que residimos, onde os serviços públicos estão mais próximos de nós e podemos perceber a sua eficácia ou não. É também mais fácil, porque raramente não conheceremos os candidatos, o que pode não ocorrer no caso das eleições estaduais e nacionais. Sabe-se também que, muitos projetos e programas, embora sejam do estado ou do governo federal, são gerenciados pelo município, como é o caso do Sistema Único de Saúde, o SUS e do transporte escolar, por exemplo. Essas são fortes razões para se compreender a importância da participação de todos na escolha dos gestores, legisladores e fiscalizadores da administração municipal.
Entre os candidatos ao poder executivo, geralmente em número reduzido, a escolha pode ser mais difícil, todavia sempre haverá um menos pior, no caso de, segundo a opinião do eleitor, nenhum deles ser bom.
É bastante diferente  com as eleições para as Câmaras Municipais. Quase sempre o número de candidatos é grande, sendo praticamente impossível que entre eles não se consiga escolher pessoas de bem e preparadas para o cargo.

Não se omitir neste momento é uma demonstração de esperança, uma lição de maturidade e uma renovação de nossa crença nas pessoas. Sempre vale lembrar que constitui um privilégio poder participar da escolha dos dirigentes,  sendo essa, uma conquista recente em nosso país e que, muitas vezes, vem sendo ameaçada.

terça-feira, 13 de setembro de 2016

Bethânia e as Palavras

Um dos primeiros presentes que me dei na condição de mulher à toa foi viajar a Belo Horizonte apenas para assistir ao show da Maria Betânia. Não podia ter feito melhor escolha. Foi encantador e diferente, pois, muito mais do que um espetáculo musical, o show  foi um encontro de literatura e da mais fina poesia. Intitulado Bethânia e as Palavras   o evento constituiu-se de leitura de textos escolhidos por Bethânia, ditos ao longo de sua carreira como cantora, intercalados por músicas já consagradas em sua voz.
A grande intérprete da MPB, portadora de uma voz inconfundível, completa 70 anos em plena forma. Não é de hoje que a cantora transita entre a música e a literatura. Durante todo o seu percurso como artista, inseriu textos, poesias principalmente, em seus shows e discos.

Logo na abertura do show,  a cantora declarou: “ler, ouvir, dizer poesia hoje, nesse tempo de tanto desapego, tanta correria, é uma tarefa difícil. É como provocar o mundo, ofender o mundo, vivemos como se não coubesse mais o silêncio, as delicadezas”. 
 Como era de se esperar, começou por Fernando Pessoa. Referindo se ao escritor português, Bethânia expressou: “poeta da minha vida, fonte para minha sede, poeta que sustenta a minha respiração, o ritmo desassossegado do meu coração”. Logo de início, trechos da Tabacaria:

“Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não fiz...
Conheceram logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada a cara
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido....”

Descalça, leve e acompanhada de dois músicos no palco, a cantora flana entre clássicos da literatura como Pe. Antonio Vieira (“a nossa poesia é uma só”) e poetas populares como Patativa do Assaré. Bela e oportuna escolha da cantora nesses tempos em que se discute redução da maioridade penal:

“Meu bom Jesus Nazareno
Pela vossa majestade fazei que cada pequeno
Que vaga pela cidade
Tenha boa proteção
Tenha em vez de uma prisão
Aquele medonho inferno
Que revolta e desconsola
Bom conforto e boa escola
Um lápis e um caderno”

Incluiu também o professor dela e de Caetano no curso ginasial, Nestor  de Oliveira Em suas aulas, disse Bethânia, ”além de didática, aprendia-se a ouvir, ler e dizer poesia... Isso acontecia numa escola pública no Recôncavo baiano. Falo sobre isso só para lembrar que é possível sim uma boa e plena educação nas escolas públicas brasileiras” 
Sua leitura passou por Manoel Bandeira, Drummond, Ferreira Gullar e muitos outros.
E as músicas que ia intercalando entre os textos incluíram composições de  Paulinho da Viola, Vila Lobos, Dominguinhos e claro, Chico, Caetano e Gil.
E para coroar  o magnífico espetáculo,  Guimarães Rosa e trechos do Grande Sertão – Veredas, em minha opinião a maior obra prima da literatura brasileira:

“O nome de Diadorim, que eu tinha falado, permaneceu em mim.  Me abracei com ele. Mel se sente é todo lambente. – ‘Diadorim, meu amor...’  Como era que eu podia dizer aquilo?
E como é que o amor desponta?
Coração cresce de todo lado. Coração vige feito riacho, colominhando por entre serra e varjas, matas e campinas.
Coração mistura amores. Tudo cabe...
Aquilo me transformava, me fazia crescer dum modo, que doía e prazia. Aquela hora eu pudesse morrer, não me importava...
No fim de tanta exltação, meu amor inchou, de empapar todas as folhagens, e eu ambicionando de pegar em Diadorim, de carregar Diadorim em meus braços, beijar, as muitas demais vezes, sempre.
Abracei Diadorim, com as asas de todos os pássaros.
Diadorim é minha neblina.
Amor é a gente querendo achar o que é da gente.”


A  lamentar do encontro, apenas a sua duração. Uma hora foi muito pouco. Achei necessário comprar o livro do show,  Caderno de Poesias - Maria Bethânia. A obra é da editora da UFMG e reúne os poemas, textos ficcionais e canções organizadas pela cantora e que fazem parte do espetáculo. O livro é belamente ilustrado com reproduções de quadros de importantes artistas brasileiros, como Tarsila do Amaral, Portinari e Caribé, entre outros e vem acompanhada do DVD com o conteúdo do show.

terça-feira, 30 de agosto de 2016

CONVERSAS DE JARDINEIROS, AMENIDADES PARA DIAS NEGROS

Há muito tempo não tenho falado sobre plantas e flores. Nesse final de agosto, repleto de ipês coloridos e com a primavera já dando seus sinais na explosão das flores dos dendróbios, falemos de flores. 
Ainda que os últimos dias, na política, estejam sendo enegrecidos por esse golpe camuflado de  impeachment e pela desfaçatez e descaramento dos algozes da presidente.
Somos, os Carmos, uma família de jardineiros e plantadores, acho que já falei disso por aqui. Aficionados pelas plantas e não somente as ornamentais. Ficamos bobos perante a beleza de matas nativas, da funcionalidade e da riqueza das hortas e pomares, das folhas de chá, enfim, de todas que pertencem ao vasto e encantador mundo vegetal.
Em Bh, os ipês estão floridos
Temos histórias marcantes relacionadas a essa nossa paixão. Uma delas é que todos nos sentimos ofendidos se, diante da beleza e exuberância de nossos canteiros e vasos, algum incauto nos pergunta se são artificiais as nossas flores. Não perdoamos tamanha desatenção e insensibilidade.
Temos um irmão que, há muitos anos, mora na Bahia. Mais precisamente, neste relato, me refiro à época em que  residia em uma vila de engenheiros, cujas casas não eram numeradas. Certa vez uma de minhas irmãos foi visitá-lo. Depois desse longo percurso que nos separa de lá, adentrou a localidade e, ao visualizar as primeiras casas, imediatamente identificou a que procurava. Os demais ocupantes do carro estranharam a sua certeza, mas ela não teve dúvida ao afirmar categoricamente: é aqui que mora o meu irmão.  O que lhe dava tanta segurança? O fato que, diante de todas as moradias e ruas desertas de plantas, deparou-se com uma casa com belo gramado e canteiros floridos. A rua em frente, arborizada com coqueiros da Bahia e outras frutíferas. Nenhum de nós duvidaria que, em não havendo outra moradia com tais características, um Carmo morava ali, 
Nestes dias, essa mesma irmã que foi visitá-lo, está mudando de casa. Enquanto ela viaja para um congresso eu cuido para que quando ela chegar seu canto já esteja com a nossa cara. Como disse no início, em tempos de orquídeas florindo em profusão não foi difícil. Além de lhe preparar alguns vasos com folhagens tradicionais, fiz-lhe um diferente. Trouxe do interior um tronco repleto de flores e adaptei-o a um recipiente simples de cerâmica. Está lá na sala nova à sua espera. 
Vaso com tronco de orquídeas
Foto de Valdiane Martins Macedo
Andei fazendo outras composições, mas a que me encantou mesmo foi a que arranjei na parede oposta à janela do quarto de empregada. Um delicado conjunto de vasinhos de cerâmica apostos à parede, também com as orquídeas dendróbios olho de boneca. Modéstia à parte, não ficou uma belezinha! Simples, fácil e barato. Pra que pensar em flores de plástico?
Beleza de composição na parede