terça-feira, 13 de setembro de 2016

Bethânia e as Palavras

Um dos primeiros presentes que me dei na condição de mulher à toa foi viajar a Belo Horizonte apenas para assistir ao show da Maria Betânia. Não podia ter feito melhor escolha. Foi encantador e diferente, pois, muito mais do que um espetáculo musical, o show  foi um encontro de literatura e da mais fina poesia. Intitulado Bethânia e as Palavras   o evento constituiu-se de leitura de textos escolhidos por Bethânia, ditos ao longo de sua carreira como cantora, intercalados por músicas já consagradas em sua voz.
A grande intérprete da MPB, portadora de uma voz inconfundível, completa 70 anos em plena forma. Não é de hoje que a cantora transita entre a música e a literatura. Durante todo o seu percurso como artista, inseriu textos, poesias principalmente, em seus shows e discos.

Logo na abertura do show,  a cantora declarou: “ler, ouvir, dizer poesia hoje, nesse tempo de tanto desapego, tanta correria, é uma tarefa difícil. É como provocar o mundo, ofender o mundo, vivemos como se não coubesse mais o silêncio, as delicadezas”. 
 Como era de se esperar, começou por Fernando Pessoa. Referindo se ao escritor português, Bethânia expressou: “poeta da minha vida, fonte para minha sede, poeta que sustenta a minha respiração, o ritmo desassossegado do meu coração”. Logo de início, trechos da Tabacaria:

“Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não fiz...
Conheceram logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada a cara
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido....”

Descalça, leve e acompanhada de dois músicos no palco, a cantora flana entre clássicos da literatura como Pe. Antonio Vieira (“a nossa poesia é uma só”) e poetas populares como Patativa do Assaré. Bela e oportuna escolha da cantora nesses tempos em que se discute redução da maioridade penal:

“Meu bom Jesus Nazareno
Pela vossa majestade fazei que cada pequeno
Que vaga pela cidade
Tenha boa proteção
Tenha em vez de uma prisão
Aquele medonho inferno
Que revolta e desconsola
Bom conforto e boa escola
Um lápis e um caderno”

Incluiu também o professor dela e de Caetano no curso ginasial, Nestor  de Oliveira Em suas aulas, disse Bethânia, ”além de didática, aprendia-se a ouvir, ler e dizer poesia... Isso acontecia numa escola pública no Recôncavo baiano. Falo sobre isso só para lembrar que é possível sim uma boa e plena educação nas escolas públicas brasileiras” 
Sua leitura passou por Manoel Bandeira, Drummond, Ferreira Gullar e muitos outros.
E as músicas que ia intercalando entre os textos incluíram composições de  Paulinho da Viola, Vila Lobos, Dominguinhos e claro, Chico, Caetano e Gil.
E para coroar  o magnífico espetáculo,  Guimarães Rosa e trechos do Grande Sertão – Veredas, em minha opinião a maior obra prima da literatura brasileira:

“O nome de Diadorim, que eu tinha falado, permaneceu em mim.  Me abracei com ele. Mel se sente é todo lambente. – ‘Diadorim, meu amor...’  Como era que eu podia dizer aquilo?
E como é que o amor desponta?
Coração cresce de todo lado. Coração vige feito riacho, colominhando por entre serra e varjas, matas e campinas.
Coração mistura amores. Tudo cabe...
Aquilo me transformava, me fazia crescer dum modo, que doía e prazia. Aquela hora eu pudesse morrer, não me importava...
No fim de tanta exltação, meu amor inchou, de empapar todas as folhagens, e eu ambicionando de pegar em Diadorim, de carregar Diadorim em meus braços, beijar, as muitas demais vezes, sempre.
Abracei Diadorim, com as asas de todos os pássaros.
Diadorim é minha neblina.
Amor é a gente querendo achar o que é da gente.”


A  lamentar do encontro, apenas a sua duração. Uma hora foi muito pouco. Achei necessário comprar o livro do show,  Caderno de Poesias - Maria Bethânia. A obra é da editora da UFMG e reúne os poemas, textos ficcionais e canções organizadas pela cantora e que fazem parte do espetáculo. O livro é belamente ilustrado com reproduções de quadros de importantes artistas brasileiros, como Tarsila do Amaral, Portinari e Caribé, entre outros e vem acompanhada do DVD com o conteúdo do show.

terça-feira, 30 de agosto de 2016

CONVERSAS DE JARDINEIROS, AMENIDADES PARA DIAS NEGROS

Há muito tempo não tenho falado sobre plantas e flores. Nesse final de agosto, repleto de ipês coloridos e com a primavera já dando seus sinais na explosão das flores dos dendróbios, falemos de flores. 
Ainda que os últimos dias, na política, estejam sendo enegrecidos por esse golpe camuflado de  impeachment e pela desfaçatez e descaramento dos algozes da presidente.
Somos, os Carmos, uma família de jardineiros e plantadores, acho que já falei disso por aqui. Aficionados pelas plantas e não somente as ornamentais. Ficamos bobos perante a beleza de matas nativas, da funcionalidade e da riqueza das hortas e pomares, das folhas de chá, enfim, de todas que pertencem ao vasto e encantador mundo vegetal.
Em Bh, os ipês estão floridos
Temos histórias marcantes relacionadas a essa nossa paixão. Uma delas é que todos nos sentimos ofendidos se, diante da beleza e exuberância de nossos canteiros e vasos, algum incauto nos pergunta se são artificiais as nossas flores. Não perdoamos tamanha desatenção e insensibilidade.
Temos um irmão que, há muitos anos, mora na Bahia. Mais precisamente, neste relato, me refiro à época em que  residia em uma vila de engenheiros, cujas casas não eram numeradas. Certa vez uma de minhas irmãos foi visitá-lo. Depois desse longo percurso que nos separa de lá, adentrou a localidade e, ao visualizar as primeiras casas, imediatamente identificou a que procurava. Os demais ocupantes do carro estranharam a sua certeza, mas ela não teve dúvida ao afirmar categoricamente: é aqui que mora o meu irmão.  O que lhe dava tanta segurança? O fato que, diante de todas as moradias e ruas desertas de plantas, deparou-se com uma casa com belo gramado e canteiros floridos. A rua em frente, arborizada com coqueiros da Bahia e outras frutíferas. Nenhum de nós duvidaria que, em não havendo outra moradia com tais características, um Carmo morava ali, 
Nestes dias, essa mesma irmã que foi visitá-lo, está mudando de casa. Enquanto ela viaja para um congresso eu cuido para que quando ela chegar seu canto já esteja com a nossa cara. Como disse no início, em tempos de orquídeas florindo em profusão não foi difícil. Além de lhe preparar alguns vasos com folhagens tradicionais, fiz-lhe um diferente. Trouxe do interior um tronco repleto de flores e adaptei-o a um recipiente simples de cerâmica. Está lá na sala nova à sua espera. 
Vaso com tronco de orquídeas
Foto de Valdiane Martins Macedo
Andei fazendo outras composições, mas a que me encantou mesmo foi a que arranjei na parede oposta à janela do quarto de empregada. Um delicado conjunto de vasinhos de cerâmica apostos à parede, também com as orquídeas dendróbios olho de boneca. Modéstia à parte, não ficou uma belezinha! Simples, fácil e barato. Pra que pensar em flores de plástico?
Beleza de composição na parede

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Falando de Política pela Voz de Leonardo Boff

Política não é dos assuntos que mais domino. Todavia, como cidadã, sou afetada a todo instante por decisões do âmbito político. Especialmente neste momento, torna-se difícil permanecer indiferente ao que ocorre no país. 
Transcrevo a seguir trechos de um texto do Professor e escritor Leonardo Boff, uma voz lúcida e ativa que vem se somar às tantas outras que lutam contra o golpe arquitetado contra a presidenta legitimamente eleita em nosso país. 

"Importa deixar claro que atrás desse golpe parlamentar se aninham os interesses mesquinhos e anti-sociais dos donos do poder, mancomunados com a imprensa que distorce os fatos e sempre se fez sócia de todos os golpes, juntamente com os partidos conservadores, com parte do Ministério Público e da Polícia Militar (que substitui os tanques) e uma parcela da Corte Suprema que, indignamente, não guarda imparcialidade. O golpe não é só contra a governanta, mas contra a democracia com viés participativo e social.
Intenta-se voltar ao neoliberalismo mais descarado, atribuindo quase tudo ao mercado que é sempre competitivo e nada cooperativo (por isso conflitivo e anti-social). Para isso decidiu-se demolir as políticas sociais, privatizar a saúde e educação e o petróleo e atacar as conquistas sociais dos trabalhadores.
Contra a Presidenta não se identificou nenhum crime. De erros administrativos toleráveis, também feitos pelos governos anteriores, derivou-se a irresponsabilidade governamental contra a qual aplicou-se um impeachment. Por um pequeno acidente de bicicleta, se condena a Presidenta à morte, castigo totalmente desproporcional. Dos 81 senadores que vão julgá-la mais de 40 são réus ou investigados por outros crimes. Obrigam-na a sentar-se no banco dos réus, onde seus algozes deveriam estar. Entre eles se encontram 5 ex-ministros.
A corrupção não é só monetária. A pior é a corrupção das mentes e dos corações, cheios de ódio. Os senadores pro impeachment têm a mente corrompida, pois sabem que estão justificiando uma inocente. Mas a cegueira e os interesses corporativos prevalecem sobre os interesses de todo um povo."
Leonardo Boff é ex-professor de Ética da UERJ e escritor.

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

CRÔNICAS DO DIA A DIA - A DECISÃO DE ME TORNAR UMA MULHER À TOA

Não sou mais a Maria Inês do Ginásio,  a Maria Inês da DRH/UFV, nem a do AGROS; e também não, como nos últimos anos, a da Faculdade de Viçosa. Libertei-me dos sobrenomes corporativos. Agora, simplesmente Maria, ou Maria da Saudade.
Há mais de um mês entreguei minha carta de demissão,  não pretendo novamente manter vínculo funcional com instituição alguma. Dá um frio na barriga, é verdade. E sou tomada ainda por dúvidas acerca da decisão. Vou sentir falta dos proveitosos e divertidos encontros semanais com meus queridos estudantes; das descobertas enriquecedoras advindas dos trabalhos de orientação, do convívio com os colegas e do crescimento permanente que a atividade docente propicia.  
Ao mesmo tempo sou tomada por uma agradável sensação de liberdade, uma autonomia prazerosa, impossível, quando se mantem vínculo empregatício, mesmo na atividade de professor, uma das mais autônomas que já experimentei.
Foram muitos anos de trabalho, melhor nem contá-los. Agora vou ser uma mulher à toa, como um amigo  já me intitulava, desde que fiz a opção por trabalhar apenas dois dias por semana.
As férias de julho foram atribuladas. Fiz três viagens e apenas uma delas a lazer. Praticamente não parei em casa. Meu cantinho sente a minha falta. O escritório ainda não foi organizado, como fazia em todos os períodos de férias e o jardim anda descuidado.  Os bordados estão finalmente sendo retomados, mas ainda não sobrou tempo para voltar à ioga. Há um livro com todos os contos da Clarice sendo começado e um show  em Belo Horizonte, programado para o final do mês. Já fiz uma lista de filmes a assistir e a promessa de me dedicar mais ao blog.
Começar a vida de a toa lendo Clarice...
Agora não poderei mais alegar falta de tempo, essa velha desculpa esfarrapada que utilizei tantas vezes. Para justificar omissões ou desinteresses, terei que confessar minha preguiça, que pretendo usufruir fartamente. Enfim, estou prontinha para assumir a libertadora condição de mulher à toa. À vida, Maria da Saudade!



sábado, 30 de julho de 2016

VIAGENS – Os encantos de Tiradentes e seu Entorno

Igreja Matriz
Aos pés da Serra de São José, Tiradentes contempla a passagem do tempo como guardião de um patrimônio de rara beleza e importância. A antiga vila de São José del Rei recebeu o nome de seu filho herói em 1889. Ao longo do século XVIII, a saga do ouro deixou em suas terras a semente da civilização mineradora, que constitui um dos pilares da identidade brasileira. Minas e o Brasil e suas tradições mais profundas estão ricamente representados e preservados na região, que faz parte de um dos trechos da estrada real. No casario colonial, nas igrejas e capelas ornadas de um barroco exuberante, nas ruas estreitas e cheias de mistério, na forte tradição cultural e religiosa, em tudo se respira a alma mineira, silenciosa e acolhedora, corajosa e altiva. Em Minas onde tudo é história, Tiradentes se projeta como território de memoria, cultura e fé.
casarios de Tiradentes

Essas palavras, adaptadas de uma placa na entrada do Museu de Santana, uma nova e majestosa atração da cidade, retratam muito bem o que é Tiradentes, uma das  cidades históricas mais charmosas do estado. Tiradentes tornou-se de uns tempo para cá,  um polo cultural acolhendo festivais importantes como o de Cinema e o de Gastronomia.
Em seus casarios e sobrados  abrigam-se hotéis e pousadas charmosos, antiquários, galerias de arte e lojas de artesanato, além de restaurantes e bares,  que oferecem o melhor da comida mineira.
Dentre as clássicas iguarias, que consolidam nossa fama de boa cozinha, as variações do frango caipira que costumam deixar os visitantes encantados: frango com quiabo,  com Ora-pro-nobis (lobrobô), ou ao molho pardo, difícil escolher o melhor. Além de outros, há também o tradicional mineirinho, deliciosa carne suína, acompanhada de tutu de feijão, feijão tropeiro, arroz e couve. Doce de leite caseiro e suas variações com amendoim ou com coco, diversas compotas, doces de frutas em barras, ou  cristalizadas, são possibilidades de sobremesa a considerar. Destaco o figo cristalizado recheado com doce de leite ou com nozes, verdadeiro manjar dos deuses.
Mineirinho, de comer rezando
Nesta época do ano costuma fazer bastante frio, o que torna a cidade ainda mais charmosa. Nos bares e restaurantes este é atenuado por aquecedores e lanternas a gás que se espalham por entre as mesas ao ar livre, tornando os ambientes alegres e românticos.
Durante o dia, muitos escolhem conhecer a cidade passeando de charretes que circulam e fazem paradas nas principais atrações, como o chafariz de São José, o Museu de Santana e as igrejas de Santo Antônio e de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos.
Bailarina em papel marchê- Arte de Fábio Francino, preciosidades  em Bichinho
Foto: reprodução da página do facebook do artista
Fachadas das lojas repletas de artesanato
Cidades e Locais do Entorno - Estando em Tiradentes, vale a pena, dar uma esticada por locais que ficam no entorno e que oferecem boas atrações. A mais próxima é o distrito de Bichinho, localizado a apenas oito km de Tiradentes. Além de abrigar um dos restaurantes mais típicos da redondeza, o distrito respira arte por todos os lados; mantém uma profusão de lojas, ateliês e oficinas de arte e artesanato de deixar extasiados os visitantes. 
Passar um dia inteiro em Bichinho, descobrindo seus encantos e apreciando a beleza da produção local, é um programa mais que bacana.
Vale a pena também visitar os municípios de Prados e  Rezende Costa, localizados a poucos quilômetros. Este último é um centro produtor de  artesanato, especialmente de tecidos feitos em teares, que são oferecidos preços convidativos. Encontram-se opções variadas de produtos em arte têxtil, como colchas, redes, toalhas de mesa, tapetes,  jogos americanos almofadas e mantas. Há também artigos feitos em ferro, madeira e cerâmica.
A cidade de Prados, também tem origem no ciclo do ouro e faz parte do circuito trilha dos Inconfidentes, com trechos  preservados da Estrada Real. Possui um artesanato variado, tradição musical e  igrejas e casarões setecentistas, bem conservados, inclusive um que pertenceu à mulher mais atuante na Inconfidência Mineira, Hipólita Teixeira de Melo.
Cidade dos moveis em madeira de demolição
Ainda bem próximo a Tiradentes está o município de Santa Cruz de Minas, famoso pela produção de móveis artesanais em madeira de demolição. 

Paisagem bem mineira
Lindinha a Maria Fumaça fazendo manobra
 na estaçãozinha de Tiradentes
Finalmente, acredito que,  estando em Tiradentes, vale dar uma esticada até São João del Rey. O passeio vale a pena, principalmente se for feito na antiga maria fumaça que faz diariamente, em horários variados, o trajeto de ida e volta, num passeio romântico e encantador pelas paisagens de Minas.