sexta-feira, 21 de março de 2025

SÃO JOSÉ

 UM HOMEM


(Uma missão enorme. Para quem queria apenas. Em sua humilde oficina.  Praticar a carpintaria.).


São José é considerado o protetor da agricultura, o  patrono das famílias e dos operários. É também  referência para os artesãos e todos que praticam manualidades. 

Segundo a crença, quando há chuva no dia 19 de março, dia dedicado ao santo,  é porque será um ano de boas colheitas e de fartura alimentar.

Cultivar crenças e tradições não impede que sejamos pessoas do nosso tempo. Não há contradição nisso.

Nossas raízes e origens nos sustentam, nossa ancestralidade orienta nossa trajetória.

Somos natureza, somos árvores, e cultivamos fé e esperança.

Podemos renascer viscejados e fortalecidos após golpes de machado.  




quinta-feira, 30 de janeiro de 2025

RESENHA DE LIVRO

 

ANNIE ERNAUX -  A Escrita como Faca e Outros Textos

O livro tem início com a conferência proferida pela autora, por ocasião da entrega do  Nobel de Literatura a ela outorgado no ano de 2022. Ao justificar a concessão do prêmio, a Academia sueca exaltou a “coragem e acuidade clínica a qual ela revela as raízes, os estranhamentos e as limitações da memória pessoal”.

Reprodução Editora Fósforo (divulgação)

Nascida em Lillebone, uma comunidade remota da França, no ano de 1940 e filha de uma família extremamente simples, Annie Ernaux estudou, trabalhou e vive em Paris. Desde o seu primeiro livro publicado aos 34 anos, Os armários vazios, a autora trata de acontecimentos pessoais e o faz com sinceridade singular.

Em uma de suas obras mais contundente, A escrita como faca, ela esclarece sua pretensão de “Mergulhar no indizível de uma memória reprimida...” e  declara que  se propõe a “... inscrever minha voz de mulher e de trânsfuga social naquilo que sempre se apresenta como um lugar de emancipação: a literatura” (P. 21).

Tendo, como a maioria dos escritores, a leitura como a base de seu produção literária, ela descreve o ato de escrita como um imperativo de sobrevivência, ao mesmo tempo em que provoca angústia e sofrimento ao autor. “A leitura nos alimenta, pode nos salvar do processo tortuoso e torturante da escrita e nos dar força para seguir em frente” (P.25). 

O escritor, segundo Annie, é o “andarilho insensível dos latidos”.  A autora está se referindo à independência e à altivez necessárias ao escritor para dar continuidade à sua jornada, lembrando o dito popular ‘Os cães ladram, e a caravana passa’.

 O seu amor à  literatura é expresso e exaltado; considera essa última como um dos aspectos da realidade que a faz inserir-se na  vida e no mundo, ao mesmo tempo em que afirma não sentir necessidade de teorizar sobre isso. “Não defino a literatura, não sei o que ela é” (P.42).  “Sinto a escrita como faca, é quase como a arma de que preciso” (P.47).

A escrita e a literatura aparecem para a autora com a esperança de se libertar sozinha de seus problemas, da dor de viver e, ao mesmo tempo, ser reconhecido pelos outros, o grande prêmio psico-simbólico (P. 64).

Annie Ernaux faz um entrelaçamento entre a sua vida e a escrita, criando uma costura perfeita entre os dois aspectos. Como acontecimentos da vida da escritora  constituem temas para seus livros, nota-se que viver e escrever para ela, são aspectos indissociáveis. E, ao escrever sobre acontecimentos de sua vida, acaba tocando em temas universais. “Escrever sua vida, viver sua escrita”. Para ela, escrever é uma maneira de existir. E com sua escrita acredita “vingar sua raça”, ou seja, atenuar dores e sofrimentos decorrentes de suas origens e condição social. A coragem é a marca definitiva de Ernaux, pois não se furta de abordar temas considerados tabus.

Em sua última parte, o livro traz a palestra feita pela autora em sua pequenina cidade natal. Uma das passagens memoráveis, em minha opinião, é  quando ela menciona: “....se vinguei a minha raça como declarei que faria... isso é muito ambicioso. ... alguns dos meus livros permitiram às pessoas tomar consciência de coisas que elas não ousavam pensar, se sentir menos sozinhas, se sentir mais livres, talvez, e por isso mais felizes” (P. 227).

Para quem gosta de ler e escrever, como é o meu caso, o livro é um ‘prato cheio’, indiscutivelmente, uma das pérolas literárias dos últimos tempos, que merece ser apreciado como se degusta uma iguaria nobre.

ERNAUX, Annie. A escrita como faca e outros textos. Trad. Mariana Delfini. São Paulo: Fósforo, 2023.

 



domingo, 29 de dezembro de 2024

VIRADA DE ANO

 

A realidade precisa ser completada pela ficção para tornar a vida mais fácil ...”.  (Pedro Almodóvar, em O último sonho. Cia das Letras, 2024. P. 93)

 

Na primeira hora 12 do dia, já era noite, naquele tempo tomado por densa escuridão. A mulher se percebeu assustada, não apenas com o fenômeno, também pela indiferença geral em volta.

Na rua como de hábito, a maior frequência de carros, devido à abertura dos portões da escola, na via de cima.

Exalava-se o cheiro habitual de fritura, no restaurante próximo que cumpria rotineiramente o horário de almoço, confirmado pelo intenso movimento de pessoas saindo e entrando dos carros que disputavam ansiosos uma vaga.

Sem se importar com a escuridão, as flores da onze horas do canteiro anexo à casa ostentavam plenas suas sedosas pétalas coloridas e brilhantes.

Chegando do trabalho suada, a filha lavou displicentemente as mãos e sentou-se à mesa do almoço, no mesmo ritmo de outras épocas. De vez em quando interrompia a refeição e dava olhadas no aparelho. Numa uma dessas, pousou os talheres à mesa e, ao que parece, respondeu uma mensagem.

Curiosa porém contida com a indiferença da moça às mudanças do tempo, a mulher levantou-se da mesa e recolheu com displicência as louças e talheres, depositando-os na pia.

Do lado de fora, deu comida ao cachorro e renovou a água da vasilha.

Ainda cansada da rotina dos festivos dias anteriores, dirigiu-se ao quarto e acendeu as luzes sem saber se deveria ingerir os medicamentos da noite. Escovou os dentes e cumpriu o ritual das loções e dos cremes antirrugas. Antes de deitar, deu uma olhada no aparelho, onde havia uma mensagem dessas emitidas por dispositivos automáticos, confirmando seu horário de atendimento com a doutora Diana, para as quatro da tarde.

Sentia-se muito confusa, mas precisando dormir.  Disposta a cumprir seus compromissos, a mulher programou o aparelho para acordá-la às 15: 00 h.

Não chegou a dormir profundamente, mas teve um pesadelo no qual comparecia nua ao salão de cabelereiro, para pintar as unhas. A recepcionista, os demais profissionais do estabelecimento, assim como os frequentadores encontravam-se vestidos como de costume e não manifestaram estranheza diante de sua nudez.

Levantou-se da cama, perdida no tempo, e se arrumou com pressa, saindo de casa pela porta da garagem.

No consultório odontológico onde chegou à recepção esbaforida e confusa, tudo parecia normal. O sorriso muito branco da assistente dava um bonito contorno ao anúncio de que a doutora estava 15 minutos atrasada. O barulho inconfundível do motor, vindo da sala de atendimento demonstrava que a dentista ainda cumpria a rotina de tortura com o cliente do horário anterior. Há trinta anos ela era paciente desse mesmo consultório. Endereço, equipamentos e assistentes mudaram. No entanto, o motor ainda parecia o mesmo, emitindo o seu infernal ruído.

Não demorou a ser chamada. A visita ao consultório constou de um pequeno procedimento de reconstituição de uma obturação que havia se trincado. Enquanto era atendida, imóvel e de boca aberta, ficou se perguntando se antes era comum que os dentistas trabalhassem com escuro.

Consultou o relógio que teimava em manter no pulso, ao sair para a rua. Para quase todo mundo esse era um objeto estranho e fora de moda. Cinco horas e o dia clareava. Desde o Natal a chuva não dera trégua e diferentemente dos dias anteriores, o sol se ostentava no alto dos morros e no topo dos edifícios. Cheiro de pão fresco saindo do forno exalava de algum estabelecimento fechado. Ônibus passavam lotados e ela não soube precisar se as pessoas iam ou vinham do trabalho.

Como se houvesse acabado de chegar em um país distante, cujo fuso horário confundia as percepções, foi para casa, com uma ligeira sensação de náuseas. Não soube precisar se deveria ingerir os medicamentos do horário matinal. Observou que as lixeiras em frente das casas começavam a receber os sacos pretos de sempre, dessa vez, repletos dos sinais de exageros cometidos pelas pessoas nos feriados do final do ano.

A filha chegava do trabalho que habitualmente se encerrava às 18:00 h. Anunciou que a partir desse ano novo, com as mudanças nos horários não haveria mais os intervalos de almoço. O Comitê Internacional de Registro do Clima Tempo concluíra, após estudos exaustivos e comprovações científicas testadas, que a terra passara a dar a volta em torno de seu próprio eixo em 12 horas. A mudança vinha sendo gradativa e quase imperceptível pelas pessoas que viviam sem tempo para nada.

A mulher tomada pela estranhamento, preparava um chá de camomila cujo cheiro imprimia um clima de antiguidade pela casa.  

Enquanto jantava, a moça anunciou que o enteado de três anos de idade fora presenteado com um aparelho e que, a partir de então, não precisaria mais receber orientações dos pais ou de quem quer que fosse, a não ser do sistema.  As escolas seriam abolidas em breve, sendo mantidos, no entanto, os berçários e creches.

Lá fora trabalhadores da companhia de saneamento enchiam às pressas o barulhento caminhão caçamba.  Carros e motos buzinavam na rua, como se isso fosse organizar o trânsito caótico da cidade. Havia mais pressa que nunca. No parque em frente, os corredores habituais praticavam seus exercícios físicos. Todos pareciam zumbis. O “admirável mundo novo” havia chegado.

 

 

 

 

 

sábado, 30 de novembro de 2024

Recortes e Retalhos


Fez-se carne o verbo:

Corpo.

De palavras feito.

Imperfeito.

= --- =

Escrevo.

E me liberto do medo.

do velho segredo.

Andarei desnuda

Em praias povoadas.


= --- =

Nesse turbilhão de palavras,

Barulhos, notícias, pedidos, 

Compromissos, zumbidos

Sigo à procura da poesia

Pepita que brilha

Entre o desejo e a lama

Ela permanece escondida.

= --- =



Se Picasso já pintava
Cinco telas num só dia
Mesmo com poucas palavras
Saio a fazer poesia.
Pegando pedaços e cacos
De uma louça quebrada
Tentando fazer com as letras
Um gaudiano mosaico.
Ou com bordados no pano
Encarnar Bispo do Rosário.

= --- =

Enquanto procuro na areia
Seixos rolados,
Lascas de malacacheta.
Encontro poesia e vida
em um ovo de lagartixa.

= --- =

Entre matos e pedras
Dias e dias
Noites de agonia
Pesadelos
Nem poemas, nem alegria
Um bloco de rocha prostrava
Irremovível.
O sol o beijava de dia.
À noite o sereno umedecia
Um ralo musgo se formava
Com folhas secas quebradas
Que o tempo enegrecia.
E no silêncio da madrugada
Pequena semente nascia 
À espera do sol que viria 
Para energizar sua vida.
 

quinta-feira, 31 de outubro de 2024

VIAGEM A ARACAJU E ARREDORES

 


“Ninguém ouviu um soluçar de dor

No canto do Brasil.

Um lamento triste sempre ecoou

Desde que o índio guerreiro foi pro cativeiro

E de lá cantou

Negro entoou, um canto de revolta pelos ares

Do Quilombo dos Palmares...” (Canto das três raças de Paulo Sérgio Pinheiro, com música de Mauro Duarte e interpretação mais conhecida na voz de Clara Nunes).

         Há algum tempo, passei por Sergipe, a caminho de Recife (PE). Ficou a vontade de voltar para conhecer melhor o estado, convicta de que o Nordeste brasileiro sempre vale bons passeios, com muita praia bonita, gente hospitaleira e cultura rica. Agora, finalmente fui para ficar um período de sete dias.

Lagoa linda e limpa em frente à praia do Atalaia

A  palavra Sergipe, tem origem na língua tupi e significa rio dos siris.  O nome passou por variantes Cirizipe e Cerigipe que significa ferrão de siri, numa referência ao cacique Serigy, um dos valentes guerreiros que lutaram contra o domínio ibérico.

Estátua em frente ao Museu da Gente Segipana


Embora a herança indígena esteja por todo o estado, os habitantes originários foram praticamente dizimados. Seu povo vivia entre os atuais rios Vaza-barris e Sergipe, onde está Aracaju. Depois de três décadas de luta, em 1590, foram vencidos pelos invasores que fundaram a capitania de Sergipe del Rey. 

No entanto, a herança indígena continua forte em todo o estado. A capital guarda em seu nome o significado de origem tupi-guarini, (Ará, papagaio e  Acaiú, fruto do cajueiro), que resultou em Aracaju, ou cajueiro dos papagaios.

São Cristóvão, a quarta cidade mais antiga do Brasil, foi a primeira capital do estado. Construída em estilo espanhol, hoje tombada como patrimônio nacional e pela UNESCO, a cidade e seu  centro possuem grande valor histórico e cultural e as construções do período colonial encontram-se em bom estado de preservação. Ai encontramos artistas de renome como o xilogravurista Arnaldo Oliveira, que nos recebeu carinhosamente em seu ateliê. Da mesma forma fomos tratadas na Casa dos Saberes e dos Fazeres pelas suas simpáticas bordadeiras e pelo Sr Jorge dos Estandartes que aos 88 anos é ícone da cultura popular, e compõe mantos e outras lindas peças artísticas.

Praça de São Francisco em São Critóvão


Arte têxtil elabora por Sr Jorge dos Estandartes

Os locais por onde andamos valem muito a pena de serem apreciados. A cidade de Aracaju encontra-se limpa e bem cuidada. Foi planejada e possui um plano diretor que estabelece limites à especulação imobiliária. Os rios não são poluídos e possuem matas ciliares preservadas. Há praias de mar e de rios espalhadas por diversas áreas. A proximidade com o estado da Bahia permite visitas à praia do Saco e Mangue Seco. Próximas ao local onde nos hospedamos, Atalaia, Aruana e Mosqueiros são ótimas opções.

É compensador também pegar a lancha na orla do pôr do sol e fazer um passeio à Croa do Goré, um banco de areia no encontro do rio com o mar, que propicia horas de banho de águas mornas e limpas, vista linda dos mangues que beiram o rio. Quando tais encantos são apreciados juntamente com a caipirinha de frutas e os variados tira-gostos disponibilizados nos barcos bar, ou na única barraca do local, ficam inigualáveis. O barco bar e a barraca permanecem ancorados até  próximo ao final da tarde, quando a maré sobe implacavelmente expulsando a gente daquele paraíso.

Da mesma forma, andar um pouco mais por estrada, pegar o barco na praia do saco e depois o buggy pelo caminho de areia para alcançar as praias de Mangue Seco, no estado da Bahia, é um passeio relativamente fácil para quem está hospedado em Aracaju. Incluir uma parada na ilha da Sogra, na volta, incrementa ainda mais um dia cheio de aventuras e pleno de paisagens deslumbrantes.

Mangue Seco (BA) e seus coqueirais

Saco de Bode: essa
linda planta dá nome
à praia do Saco

Tanto o museu da Gente Sergipana, quanto o Memorial de Sergipe Prof Jouberto Uchoa, são bons espaços para imersão histórica e cultural do Estado. Especialmente o primeiro, com o acervo de réplicas das obras de Arthur Bispo do Rosário, juntamente com as estátuas gigantes de figuras do folclore de Sergipano na parte externa, me encantaram de maneira singular.

Para sintetizar, a viagem ao Sergipe e ao pedacinho da Bahia nos permitiu observar que é uma região plena de atrações turísticas, tem um povo muito hospitaleiro e uma cultura muito rica. Entretanto, percebe-se que a distribuição de renda é injusta como em todo o Brasil e que o povo “canta de dor”, sem perder de vista sua memória, e sua valiosa ancestralidade.

Voltamos revigoradas por apreciar mais um pouco da cultura e das imensas belezas desse nosso país, sem deixar de sentir, no entanto, repercutindo nos ouvidos, o eco dos clamores de seu povo.

Cacique Serigy vive! E sua luta nos encoraja.

Bispo do Rosário vive! E sua arte nos inspira.


Com as bordadeiras da Casa dos 
Saberes e dos Fazeres em São Cristovão

Com o mestre Nivaldo e companheiras de
viagem em São Cristóvão